Indiespensável | Aquarius

Críticas
// 26/09/2016
aquarius

Kleber Mendonça Filho sabe fazer barulho. O seu primeiro longa de ficção, O Som ao Redor, foi aclamado pela crítica, ganhou prêmios e foi a indicação brasileira de 2014 para o Oscar, ainda que não seja essa Coca-Cola toda, não. Tirando uma cena ou outra mais instigante, o filme é recheado de passagens que não fazem muito sentido e/ou não contribuem muito para o andamento da trama.

Adianta a fita, estamos em 2016. Os brasileiros subitamente se descobriram politizados e passaram a entender tudo de pedaladas e impeachments. Amizades de anos terminaram depois de 5 posts no Facebook. Coxinhas e petralhas declararam guerra, num diálogo marcado por gritaria e surdez.

Acontece, então, o lançamento de Aquarius. Premiére em Cannes, Sônia Braga como protagonista, o mundo todo de olho. Seria a oportunidade da nossa eterna Gabriela falar sobre o vestido que está usando e seus segredos de beleza? Não! Em vez de divar pelo tapete vermelho, a equipe do filme aproveitou os holofotes para protestar contra o impeachment de Dilma Roussef: “a coup took place in Brazil” foi a mensagem passada. Pra quê!? Coxinhas e petralhas, além de analistas políticos, se tornaram críticos de Cinema e, óbvio, se dividiram mais uma vez. Gritos de #ForaTemer passaram a ser bradados ao final das sessões, enquanto boicotes foram defendidos por “pessoas de bem”.

Tá, mas e Aquarius no meio disso tudo? Novamente, foi aclamado pela crítica. Novamente, não me apaixonei (ainda que seja melhor do que O Som ao Redor).

A história da venda do apartamento da protagonista é o pretexto para se abordar uma série de questões interessantes, de crítica social à sexualidade na terceira idade idade – e isso sem nenhum posicionamento partidário, registre-se. Aquelas passagens que não contribuem pro avanço da trama continuam lá e, apesar de gostosas de assistir, comprometem um pouco o ritmo e o interesse pela história (mesmo não prejudicando o filme), que às vezes se perde em cenas do cotidiano. Sônia Braga está excelente e faz de sua Clara uma personagem segura de si e de seus valores. Dança, namora, transa, bebe, fuma maconha, escuta Roberto Carlos. É a força motriz de Aquarius.

Aquarius ainda ganha com o ótimo elenco e uma trilha sonora inspirada. É, sem dúvida, uma sólida evolução se comparado a O Som ao Redor, que com uma boa enxugadinha no roteiro mereceria todos os elogios recebidos. E aos ditos “coxinhas”, podem assistir sem medo. Ninguém está defendendo o Bolsa Família e você não vai ganhar uma passagem só de ida para Cuba na saída do cinema. Petralhas, menos. Aquarius é bom, mas não é a obra-prima-antigolpista-ForaTemer tão falada por aí. Aliás, suspeito que nunca pretendeu ser.

P.S.: Kleber, já estou no aguardo do seu próximo filme.

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Críticas, Drama, Nacional