CRÍTICA | Kung Fu Panda

Animações
// 04/07/2008
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Enquanto os concorrentes (sim, aquela mesma) tentam inovar investindo em personagens menos triviais pra compor o elenco de suas animações, a DreamWorks continua apostando no que lhe parece mais garantido. Os bichinhos fofinhos que já permeavam Os Sem Floresta, Madagascar e Bee Movie estão de volta agora em Kung Fu Panda. Unindo o útil e rentável ao agradável, o estúdio se aproveitou do ano em que as Olimpíadas serão realizadas em Pequim (que, aos poucos, está virando Beijing até aqui no Brasil, país de língua portuguesa até o momento) e contextualizou seu mais novo filme nas paisagens chinesas. A junção inegavelmente deu certo.

A aventura gira em torno do sonho de Po, o panda, de ser um reconhecido lutador de kung fu. O problema é que, apesar do desejo sincero em ser um lutador, ele é, a princípio, somente o ajudante de seu pai (um ganso!) em uma venda de macarrão. O urso – que na versão original é dublado por Jack Black, mas você provavelmente vai assistir na voz de Lúcio Mauro Filho em ótima performance – é grande admirador d’Os Cinco Furiosos, guerreiros treinados pelo Mestre Shifu. Os ídolos de Po são representados pelos animais em que se baseiam os princípios do kung fu: tigre, louva-deus, macaco, garça e cobra. As habilidades características de cada um deles forma os pilares da luta.

O destino de todos eles se cruzará a partir do momento em que Tai Lung, um leopardo das neves que também foi treinado por Shifu, foge da prisão de segurança hiper-mega-master-super-máxima Chorh-Gom. Quando era jovem e ainda estava sob a tutela de seu mestre, Tai Lung sempre teve convicção de que seria escolhido como o Dragão Guerreiro e teria, conseqüentemente, direito ao Pergaminho do Dragão que, segundo as lendas, contém segredos de um poder superior a tudo antes visto. Não sendo o predestinado a colocar as mãos no tesouro, ele se revoltou contra todos causando pânico no Vale e foi preso durante vinte anos. Agora ele está de volta e precisará ser detido pelo verdadeiro Dragão Guerreiro, que é, senão outro, o desengonçado Po. Para aturdimento geral, o panda é escolhido como o herói que salvaria o povoado em uma das melhores seqüências do filme. O tempo, então, começa a correr, e Shifu tem pouco tempo para lapidar o talento de seu novo pupilo e transformá-lo em um guerreiro corajoso e páreo para Tai Lung.

A trilha sonora do filme, de autoria do brilhante Hans Zimmer em parceria com John Powell, junto com o visual que nos remete diretamente à cultura chinesa são ingredientes essenciais para que o expectador se deixe imergir na cultura oriental tão em moda nesses tempos. Aliás, referências à China não faltam. Além do kung fu e da arquitetura, há inserções de outros aspectos, alguns sutis, outros nem tanto (como, nesse caso, a acupuntura).

Porém, a animação não tem intenção nenhuma de se aprofundar nesses detalhes. Eu diria, inclusive, que Kung Fu Panda é conscientemente despretensioso. Diferente de seu concorrente em cartaz nos cinemas (sim, aquele), a fauna do filme não tem outro objetivo que não seja divertir. Portanto é aconselhável que o interessado no filme não vá ao cinema tentando encontrar qualquer engajamento ambiental ou qualquer mensagem mais profunda embutida nos diálogos inocentes dos personagens. Claro que há uma moral. Praticamente todos os filmes destinados às crianças possuem uma, mas estamos falando da DreamWorks. E se aquele protagonista com olhar tristonho não precisa de mais do que um movimento de seu globo ocular para passar seu recado, Po e seus companheiros usam e abusam de piadinhas, caras e bocas. Às vezes até exageradamente, ao ponto de quase virarem uma caricatura de si mesmos. A lição aqui é a velha máxima de “não desista de seus sonhos, supere-se a cada instante”. Nada que desperte uma reflexão maior.

O filme cumpre com o seu papel de objeto de entretenimento. Com certeza você que for assistir dará algumas risadas, assim como eu. Há algumas passagens que realmente valem a pena, mas fica nisso mesmo. Os produtores da DreamWorks cumprem a proposta de divertir seu público. E nem digo que seria necessário algo além disso, muito pelo contrário. Uma animação não pode perder sua essência de “animação” para virar cartilha de comportamento para as crianças. O problema é nosso se existe uma coisa chamada  que aumentou o parâmetro de julgamento nessa indústria fazendo filmes cada vez mais elaborados (oh, céus, perdoem-me, pois eu pequei!).

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Kung Fu Panda (EUA, 2008). Animação. DreamWorks Pictures.
Direção: John Stevenson, Mark Osborne
Elenco: Jack Black, Angelina Jolie, Lucy Liu, Dustin Hoffman, Jackie Chan

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