Logan | Como a trilha narrou muito bem a trama do filme

Ação
// 21/10/2016

Johnny Cash, mundo pós-apocalíptico e pouca esperança no futuro. O primeiro trailer de Logan chegou com uma missão agridoce e deixando os fãs com as expectativas altas. Adaptar a história Old Man Logan, escrita por Mark Millar, para os cinemas é a prova de fogo para a Fox e uma tarefa audaciosa para James Mangold, diretor de Wolverine: Imortal e de Logan.

A escolha de “Hurt”, interpretada por Johnny Cash, para ser a trilha do trailer não foi feita por acaso. Além do fato do diretor ter comandado a cinebiografia do cantor, a música conversa diretamente com a história e com o tom que ele quer imprimir nesse novo filme. Antes de explicar o porquê, é importante lembrar a história da música. “Hurt” foi escrita por Trent Reznor, da banda Nine Inch Nails, em 1994 para o quarto CD da banda e foi adaptada por Johnny Cash em 2002. Nessa época, Cash estava doente e debilitado por conta de uma doença neuro-degenerativa. A música parecia ter sido escrita para ele, se assemelhando a um testemunho de tudo o que tinha feito e acontecido nos seus 70 anos de vida e nos 50 de carreira. E isso também se aplica ao herói mutante agora.

Logan está mais velho, com cicatrizes físicas e psicológicas e sem muita esperança para o futuro. Ele precisa cuidar de um Charles Xavier debilitado e com Alzheimer, além de proteger a jovem X-23 (que não teve o nome oficial divulgado ainda) das mãos dos Carniceiros de Mutantes, liderados por Donald Pierce. O diretor disse em uma entrevista que o filme é sobre família, se manterem juntos e sobre criar conexões em um mundo onde os personagens parecem estar mais sozinhos do que nunca. E é com essa premissa que o trailer é apresentado. E a canção de Cash soa como uma inspiração.

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I hurt myself today to see if I still feel. I focus on the pain, the only thing that’s real” (“eu me firo todo dia pra ver se continuo sentindo. Eu foco na dor, a única coisa que é real”), Logan não parece ter mais esperanças com relação ao seu futuro e ao futuro do mundo, praticamente vivendo apenas para cuidar de Xavier. Seu poder de cura já está enfraquecido e a simples soltura de suas garras causa dores horríveis; se machucar e sentir essa dor são a única coisa que o faz ter certeza que ainda está de pé (à mesma maneira como alguns casos de depressão, que se cortam para se sentirem vivos).

Beneath the stains of time, the feelings disappear. You are someone else, I am still right here” (“debaixo das manchas do tempo, os sentimentos desaparecem. Você é outro alguém, eu continuo bem aqui”), após mais de dois séculos de existência e de luta, perdendo amigos e amores, Logan está impassível. Seu único sentimento é o de compaixão com aquele que sempre o ajudou quando ele precisava, obrigando-o a cuidar do seu velho amigo, que já não está tão são como antes (e que por muitas vezes é “outra pessoa”, mas Logan continua ali, igual sempre foi).

And you could have it all, my empire of dirt, I will let you down, I will make you hurt” (“e você poderia ter tudo, todo o meu império imundo, eu vou te decepcionar, eu vou te fazer sofrer”), Logan já está cansado, não é mais aquele jovem que cuidava da Vampira com a esperança de que ela pudesse ser uma pessoa melhor do que ele. O surgimento de uma criança com as mesmas habilidades que ele, nesse estágio da sua vida e na situação que o mundo se encontra, não é algo que queira. E isso é deixado claro no trailer: após o Professor dizer que a garota precisa de ajuda, Logan é enfático em dizer que “alguém aparecerá [pra ajudá-la]”, não querendo assumir o fardo de cuidar de mais uma pessoa. A única coisa que essa criança teria sob sua supervisão seria seu “império de sujeira”, seus problemas e os perigos que o acompanham onde quer que vá. Ele vai decepcioná-la e fazê-la sofrer. Foi assim com outros amigos e amantes, não seria diferente agora.

I would keep myself, I would find a way” (“eu me pouparia, eu encontraria um jeito”), apesar de saber que isso tudo é o que a X-23 pode esperar se ficar ao lado dele, mesmo cansado de lutar e de sentir qualquer coisa, Logan ainda faria o que sempre fez, protegeria quem ama com garras e dentes. Se para proteger sua nova pupila ele tem que esmagar alguns corações e perfurar alguns crânios, que seja! Ele faria novamente porque é isso que o herói mutante sabe fazer: encontrar uma maneira de proteger. A última frase do Professor se conecta a isso: “você ainda tem tempo”.

Se o tema de família e união é o que move o filme, existe outra comparação a se fazer, que muitos fãs já fizeram. The Last of Us, jogo eletrônico da Naughty Dog para PS3, seguia a mesma linha, inclusive guardava semelhanças físicas com os personagens do filme. Joe, protagonista do jogo, também é um homem cansado, sem esperanças e perspectivas após perder a filha quando tentava fugir de um ataque de infectados zumbis. Ellie é uma jovem imune ao vírus que desolou o mundo inteiro e a única esperança para a humanidade e para Joe, que se encarrega de proteger a garota até encontrar um local seguro para viverem.

Tanto para Joe quanto para Logan, o mundo está desolado, sem esperanças e hostil; qualquer um é seu inimigo. Na trama de The Last of Us, Joe é o encarregado por proteger e salvar a garota, mas é ela que acaba salvando ele de si mesmo, mostrando-o que existem pessoas e coisas nesse mundo pelas quais valem a pena lutar. Ellie acaba se tornando a filha que Joe não pode ter mais. Pela prévia, Logan passa pela mesma jornada de Joe, inicialmente rejeitando sua função para X-23, mas amolecendo e se afeiçoando à garota, se conectando ou pelo fato de serem “muito parecidos”, como o Professor faz questão de ressaltar, ou pelo fato de ela acabar salvando Logan de si mesmo, à maneira do jogo.

Em entrevista, James Mangold disse que uma das condições para que ele e Hugh Jackman aceitassem fazer outro filme solo do herói era a possibilidade de se livrar de algumas tradições dos longas de super-heróis, do fato de não precisar salvar o mundo ou países de alguma ameaça, mas tornar o perigo mais localizado, construir a história em torno de um personagem e de seus problemas. E isso parece estar acontecendo aqui. Logan parece muito mais um drama em um futuro distópico e isso pode ser um acerto para fazê-lo funcionar melhor do que seus antecessores.

A prova de fogo da Fox e a tarefa audaciosa de Mangold teve um bom começo. As expectativas sobre o filme, que já estavam altas por ser o último de Hugh Jackman interpretando o personagem, cresceram um pouco mais após o primeiro trailer. James Mangold é um diretor mais do que capaz de fazer bons filmes, o que já foi comprovado com Johnny & June e Garota, Interrompida. O peso de atores como Patrick Stewart, Richard E. Grant com participações muito mais cruciais na trama ajudam a atingir esse objetivo e Logan pode ser um final digno para um personagem que teve altos e baixos na sua vida cinematográfica.

Como bem disse o Professor Xavier no fim do vídeo, ainda dá tempo para fazer justiça a esse personagem tão icônico.

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