Por que a DC ainda não deu tão certo no Cinema?

Ação
// 26/05/2016
dc-vs-marvel

Há seis anos, quando o Universo Cinematográfico da Marvel ainda era só uma promessa, fiz um artigo para o Pipoca Combo sobre por quê eu não queria um universo compartilhado da DC no cinema. Muita coisa mudou desde aquela época e, é claro, a Warner segue tentando seu universo “expandido”, como chama, buscando monetizar com os personagens da DC da mesma maneira que a Marvel tem conseguido com grande sucesso com seus personagens. Mas por que a Warner chegou tão tarde no jogo, sendo que começou com ele muito antes? Não sou capaz de dar uma resposta definitiva a essa pergunta, mas olhar para o passado é sempre um bom ponto de partida para se compreender o presente.

Mesmo após várias décadas com toda a cartela de personagens da DC (que inclui os 3 personagens mais reconhecidos no planeta*), a Warner ainda patina para transformar os personagens da editora em marcas que combinem lucratividade e fidelização do espectador. Depois de praticamente definir o gênero (se é que podemos considerar super-heróis um gênero) com Superman, de Richard Donner, e mostrar que Batman pode ser um personagem sério com Batman, de Tim Burton, a Warner tem desde então alternado entre grandes acertos (quase que exclusivamente com o Batman) e desproporcionais erros, como os Batmans do Joel Schumacher, Mulher Gato e Lanterna Verde – apenas para citar alguns.

Muitos dos que estão lendo este texto são de uma geração pós primeiro X-Men, ou até pós primeiro Homem de Ferro. Eu sou de uma geração pós Superman do Richard Donner, então posso dizer que acompanhei os percalços da Warner e seus erros e acertos quanto aos filmes da DC antes que a Marvel criasse sua fórmula de sucesso. E, até hoje, uma pergunta permanece na minha mente: por que os resultados de ambas no cinema são tão diferentes**? Por que a Marvel Studios, que tem apenas uma década, saiu na frente da Warner, que faz filmes da DC há várias décadas?

Pode-se dizer, para efeitos de síntese, que a trajetória da Warner com os filmes da DC começou com Superman em 1978 (embora, na prática, era uma produção quase independente de Ilya Salkind e seu pai, Alexander). E começou muito bem, tanto que até hoje a produção é colocada entre os melhores filmes de super-herói já feitos – e conseguiu esse feito numa era pré-CGI,  muito antes de super-heróis serem considerados “cool” pelo público em geral como é hoje.

Richard Donner saiu antes de terminar o segundo filme (que foi filmado junto com o primeiro), mas Superman II continuou a trajetória de sucesso do original. O mesmo não pôde ser dito de Superman III (cujo “vilão” era o comediante Richard Prior) e Superman IV: Em Busca da Paz, que encerrou a franquia do Homem de Aço devido à péssima recepção.

Dez anos depois, a Warner teria outro hit: Batman, dirigido por Tim Burton. Aproveitando a renovação que o Homem Morcego estava sofrendo desde os anos 70 nos quadrinhos (onde o personagem divertido foi substituído por um mais sombrio e amargurado) e seguindo o estrondoso sucesso de obras mais adultas como O Cavaleiro das Trevas, Asilo Arkham e A Piada Mortal, o estúdio trouxe um filme do Batman regado a uma forte campanha de marketing (financeiramente reforçada pelo na época recém-formado conglomerado Time-Warner) e o retorno foi extremamente satisfatório, justificando uma sequência também bem sucedida.

Quando a Warner começou a achar o Batman do Burton sombrio demais, mudou a direção dos seus filmes, trazendo Joel Schumacher, que dirigiu Batman Eternamente e o famigerado Batman & Robin. A péssima recepção de crítica e público enterrou a franquia do Homem Morcego, sendo revitalizada apenas quase 10 anos depois.

Diversas foram as tentativas da Warner retomar as franquias de Batman e Superman, todas elas engavetadas (um documentário sobre Superman Lives, filme do Tim Burton que nunca viu a luz do dia, explica o que houve com a produção). Até que, em 2005, Christopher Nolan entregou o filme que colocaria o Bruce Wayne de volta aos eixos: Batman Begins. Novamente trazendo um Batman mais sério e sombrio, Nolan foge da estética estilizada de Tim Burton e busca no realismo dos thrillers policiais a fórmula para fazer funcionar seu personagem. Deu tão certo que gerou duas sequências, uma delas considerada uma obra-prima dentro do gênero, e inspirou todos os filmes da DC que vieram depois desta trilogia.

Um ano depois de Batman Begins, a DC trouxe de volta o Homem de Aço. Pelas mãos de Bryan Singer – diretor que havia começado esta nova onda de filmes de super-herói com seus bem-sucedidos filmes dos X-MenSuperman – O Retorno era uma homenagem ao tão venerado filme do Richard Donner. Não tem como errar, certo? Bem, teve. O filme teve boa bilheteria, mas a recepção não foi das melhores, o que obrigou a Warner a repensar mais uma vez o que iria fazer com o personagem.

Foi enquanto lutava contra um bloqueio criativo durante o processo de roteiro de O Cavaleiro das Trevas Ressurge que David Goyer apresentou a Nolan uma ideia de um filme do Superman. Mais um filme de sci-fi do que de super-herói, seria uma história de “primeiro contato”, mostrando o impacto do surgimento do Superman no mundo. Nolan gostou da ideia o suficiente para apresentar à Warner e levar o projeto adiante como um dos produtores. O resultado foi O Homem de Aço, dirigido por Zack Snyder, que trouxe Superman “para os novos tempos” como um personagem sombrio e amargurado que não só é um alienígena, mas se sente um alienígena entre as pessoas. Apesar da recepção mista, foi bem-sucedido o suficiente para dar à DC a confiança necessária para prosseguir com uma ideia de universo compartilhado, finalmente pensando em outros personagens além de Batman ou Superman.

Mas e quanto aos outros personagens da DC? Bem, poucos personagens além de Batman e Superman tiveram sua chance nas telonas. Nos últimos 40 anos, foram sete: Monstro do Pântano, que teve dois filmes (em 82 e 89); Supergirl, um spin off do Superman do Richard Donner, em 1984; Aço, em 1997; Mulher Gato, em 2004; Constantine, em 2005; Os Perdedores e Jonah Hex, em 2010; e Lanterna Verde, em 2011***. Se você é jovem e nunca ouviu falar de nenhum desses filmes, não fique chateado: todos foram mal recebidos pela crítica e pelo público, então pouca gente lembra deles.

Com todo esse tempo tendo diversos grandes personagens nas mãos, não passava pela cabeça da Warner fazer um universo compartilhado, por mais incrível que isso possa parecer. Nos anos 90/2000, um filme com Batman e Superman dirigido por Wolfgang Petersen chegou perto de sair, e um roteiro de Kevin Smith que tentava adaptar a morte do Superman citava diversas pontas de super-heróis e vilões da DC, mas não passava disso. Misturar super-heróis numa plurifranquia interconectada já era desafio demais para um estúdio que só conseguia sucesso com seus rostos mais famosos, e olhe lá. Tanto é que, quando a Marvel Studios começou a fazer filmes dentro de um mesmo universo live-action, a resposta padrão da Warner era que os personagens da DC tinham, cada um, mitologias próprias para se explorar individualmente, e que um universo DC compartilhado talvez não fosse a melhor ideia (o que, à época, eu concordava, como era possível ver no meu post de 6 anos atrás).

Mas por que a Marvel tomou a dianteira quando a vantagem sempre havia sido da DC?
Bem, creio que os motivos para isso são maiores do que este texto conseguiria comportar, mas um dos principais culpados recentes pode ter sido, invariavelmente, Cristopher Nolan.

Quando Nolan criou seu universo do Batman, ele nunca cogitou que Bruce Wayne vivesse num mundo onde um alienígena veio para a terra e passou a usar seus superpoderes para salvar o mundo. Ele mesmo havia declarado em diversas ocasiões que seu Bruce Wayne teria tomado decisões bem diferentes (provavelmente nunca se tornado Batman) num mundo onde existisse alguém como Superman. O próprio Homem de Aço, produzido por ele, é colocado num universo à parte – mesmo com a menção (inicialmente mais um easter egg) às empresas Wayne. Ou seja, para Nolan, estes super-heróis pertenciam a mundos totalmente diferentes.

A Warner respeitou muito esta decisão – até demais. Tanto que fez um filme do Superman (O Retorno) num mundo completamente à parte, bem como o Lanterna Verde. Não só por respeito à visão do Nolan, mas principalmente porque, em termos logísticos, é muito mais fácil gerenciar uma franquia que não depende de outros filmes, como é o caso em um universo compartilhado. Se a Warner já tem dificuldades para lidar com um personagem, imagina com vários.

Mas por que então eles decidiram finalmente fazer um universo cinematográfico após Homem de Aço? Simples: dinheiro. Oito anos atrás, o universo compartilhado da Marvel era apenas uma aposta. Hoje, não só é um modelo consolidado e de sucesso, mas também uma fórmula que outros estúdios estão até agora tentando recriar. Só para vocês terem uma ideia, Capitão América: Guerra Civil garantiu ao MCU atingir os 10 bilhões de dólares, mais do que qualquer franquia cinematográfica (mais até que Star Wars, Harry Potter e 007). São 13 filmes com, no máximo 2 ou 3 deles com recepção morna (nenhum destruído pela crítica ou pelo público, por exemplo), todos os outros com recepção de público e crítica acima da média. Cinco deles ultrapassaram 1 bilhão mundialmente (Guerra Civil sendo o mais recente), ficando entre as maiores bilheterias de todos os tempos. E não há nenhuma perspectiva que esse quadro mude tão cedo.

Com ito anos de sucesso quase seguidos, a Marvel (e, consequentemente, a Disney, que é dona do estúdio) se tornou um estúdio a ser observado – e, principalmente, invejado. É óbvio que eventualmente algum executivo da Warner iria olhar para nomes como Superman, Batman, Mulher Maravilha, Liga da Justiça (personagens que estão na cabeça de gerações por conta de gibis, games, animações e séries de TV) e se perguntar: por que diabos eles não estão ganhando rios de dinheiro com isso? Como é que a Marvel consegue fazer milhões com um filme de um personagem chamado Homem Formiga e a Warner ainda não ganhou zilhões com um filme da Mulher Maravilha? A pergunta é, além de muito relevante, fundamental.

Após o lançamento de Homem de Aço, a Warner começou a mexer em suas engrenagens internas para garantir que a isso se seguisse um inédito universo cinematográfico da DC. Assim, definiram uma lista de diversos filmes para até 2020, tendo Batman v Superman: A Origem da Justiça como ponto de partida. Tudo parecia bem, não fosse a estranha recepção que o filme teve. Apesar da bilheteria alta (quase 900 milhões mundialmente), o filme foi massacrado pela crítica e a recepção pelo público foi mista, o que fez a Warner ligar seu botão de pânico e começar novas reestruturações de seu quadro interno. O que vai acontecer nos próximos anos só o tempo dirá.

A Warner segue sendo dona de alguns dos melhores super-heróis já criados e talvez os mais populares no imaginário cultural do ocidente, mas ainda sofre para fazer estas propriedades intelectuais retornarem em lucro e prestígio para a empresa. Se tem uma coisa que poderia ajudar o estúdio a superar seus desafios futuros seria justamente olhar para trás, analisar seus erros passados e reconhecer suas limitações, trazendo assim profissionais que preencham essas lacunas e criando uma engrenagem interna que funcione para todo mundo, estúdio e audiência.

 

*O símbolo do Superman é o segundo símbolo mais reconhecido no mundo inteiro, atrás apenas da cruz cristã.

**É bom ressaltar aqui que estou falando dos resultados (recepção do público + recepção da crítica), não se eles são bons ou ruins (o que é subjetivo).

***Não estou contando obras fechadas como V de Vingança e Watchmen. E estou me focando exclusivamente no cinema, ignorando as tentativas na TV.

Comentários via Facebook
Categorias
Ação, Artigos, HQ's