Meryl Streep e a importância de provocar

Editorial
// 09/01/2017

Arte tem que fazer sentir. Ou, pelo menos, assim deveria ser.

A Sétima Arte – aquela que a gente vê na tela grande de uma sala larga e escura e, não por acaso, é o tema deste site – pode ser dividida, de forma bastante simplória, em duas categorias: a que agrada e a que incomoda. E aqui não é uma questão de preferir comédia ou drama, gostar mais de um diretor do que de outro. É sobre o impacto sociocultural que uma obra cinematográfica pode – e deve – causar.

Vamos lá, uma coisa de cada vez. A categoria que agrada é fácil de digerir. Não nos leva para fora de nossa zona de conforto, não nos apresenta realidades desconhecidas nem escancara injustiças que vivemos diariamente. Já a que incomoda promove algum tipo de reflexão, gera desconforto, causa mal estar, mesmo que mostre e questione apenas a vida como ela realmente é. O que os filmes dessas duas categorias têm em comum? Todos são uma forma de entretenimento e integram uma indústria gigantesca, sejam eles grandes blockbusters ou pequenos filmes independentes. E independentemente de seu tamanho, qualquer película, seja em longa, média ou curta metragem, pode servir apenas para entreter ou servir como uma forma para denunciar, propor um pensamento, estimular mudanças. Arte é isso. Te faz sentir alguma coisa, para o bem ou para o mal. É algo que faz seu coração bater mais forte, seja de alegria, emoção, tristeza, raiva.

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Para o espectador comum é natural buscar filmes que não sejam nada além de diversão, uma escapatória momentânea da rotina. Isso é fácil. E não há absolutamente nada de errado com isso. Mas como esse mesmo espectador reage ao se deparar com um material mais provocativo? Há quem pare e pense. Há até quem adote novos hábitos. E há quem não admita que a arte cumpra seu papel de forma plena: pode até fazer pensar, mas não sobre tudo.

Se é inerente à arte fazer pensar e sentir, é responsabilidade do artista provocar pensamentos e sensações. E foi exatamente o que Meryl Streep, uma das atrizes mais consagradas de nosso tempo, fez em seu discurso de agradecimento ao receber o prêmio Cecil B. DeMille, um dos mais importantes da indústria do entretenimento, durante a cerimônia do Globo de Ouro de 2017 (vídeo na íntegra, legendado em HD, no topo do texto). Simpática e emocionada, ela recebeu das mãos da amiga – e também premiada atriz – Viola Davis o troféu e agradeceu o reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Podia aproveitar todo o seu tempo de fala para citar nomes que foram importantes na construção de sua carreira, mas preferiu usá-lo para, adivinhe, fazer pensar e sentir. Ela é, afinal, uma artista, uma agente da arte.


Se é inerente à arte fazer pensar e sentir, é responsabilidade do artista provocar pensamentos e sensações. E foi exatamente o que Meryl Streep fez em seu discurso de agradecimento.


Figura de destaque e com gigantesco alcance de público, usou sua imagem, voz e tempo de exibição em rede internacional para celebrar a presença de estrangeiros nos EUA, especialmente na indústria do entretenimento. Exaltou a diversidade e criticou aberta e firmemente Donald Trump, presidente eleito do país, que defende uma política de ideais xenofóbicos e machistas, para dizer o mínimo. Foi ovacionada e sua mensagem inspirada – carregada de repulsa a qualquer forma de desrespeito e violência, convidando todos a se unirem em prol de um ideal de justiça, igualdade e diversidade – repercutiu. Não demorou até que aparecessem pseudo intelectuais deixando claro que ela havia perdido sua admiração, que imigrantes ilegais tinham mais é que ser deportados mesmo (em vez de ter suas situações regularizadas) e até mesmo que artistas não devem misturar seu trabalho com política. Mas… Espere um minuto! Não mesmo? Será que não?

Política é coletividade. Isso significa que afeta a todos, sem distinção. Então é função de cada pessoa pensar a respeito, compreender como se sente a respeito para, então, definir sua opinião. E se a política deve ser pensada e sentida, ela deve ser discutida na arte e pela arte. E, é óbvio, provocada por artistas.

Uma coisa é concordar ou discordar das opiniões de Trump – ainda que aqueles que concordem sejam geralmente pessoas com a mesma linha de pensamento (preguiçoso, diga-se de passagem) que apoiam também figuras como Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, espalhando ódio e desinformação onde quer que passem. Outra coisa completamente diferente é achar que uma artista – por acaso, aqui, a mais celebrada de nossa época e uma das mais respeitadas da história – não deve dar pitaco sobre política ou os impactos das falas e ações de uma pessoa em um cargo de poder para a sociedade.

Arte também é incomodar. Arte também é promover reflexão. Arte também é denunciar. Arte também é criticar. Arte também é colocar o dedo na ferida. Então pode ter certeza: quando uma pessoa que trabalha com arte tem este tipo de atitude, ela está exercendo seu papel tanto como cidadã quanto como artista.

Meryl Streep é uma artista. É, portanto, uma responsabilidade dela aproveitar sua visibilidade, seu alcance, para provocar. Fazer pensar. Fazer sentir. Fazer arte.

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