O filme 3D é muito escuro? A culpa pode ser do cinema escolhido, não do filme

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// 05/06/2017

Desde 2009, quando James Cameron lançou Avatar, a indústria cinematográfica entrou em um processo de fabricação desenfreada do 3D. No início, a novidade da experiência fazia o espectador pagar com gosto o preço mais caro do ingresso. Hoje, a linguagem que ainda não foi totalmente adaptada ao formato (que só é bem explorado em pouquíssimos filmes) e o sem-fim de longas gravados em 2D e apenas convertidos para o padrão tridimensional cansaram o público, que já foge das salas 3D (seja para economizar, seja porque não vê muita diferença).

A verdade é que o formato, seja ele nativo (gravado com câmeras 3D) ou pós-convertido, impõe uma sensação de profundidade em qualquer filme, como se estivéssemos assistindo a uma janela, e não a uma tela chapada. E isso independe do gosto. O efeito, basicamente, é esse. Mas o que acontece quando nem mesmo esse resultado conseguimos ter?

Não é de hoje o alto número de pessoas que reclamam da dificuldade de enxergar os personagens e objetos em cena nos filmes 3D. O motivo é o mesmo: a imagem é muito escura. Essa é uma meia verdade. E a culpa não é de quem comandou a produção.

Toda sala de cinema é equipada com um projetor (ok, todos já sabem), que utiliza uma lâmpada para que a imagem atravesse a sala e chegue até a tela. Quanto mais forte configurarmos essa lâmpada, mais clara será a imagem lá na frente. Porém, quanto mais você exigir da lâmpada, menos tempo ela irá durar, queimando em um curto espaço de tempo e necessitando uma troca. E, sim, custa bem caro.


Não é de hoje o alto número de pessoas que reclamam da dificuldade de enxergar os personagens e objetos em cena nos filmes 3D. O motivo é o mesmo: a imagem é muito escura. Essa é uma meia verdade.


O que acontece é que para que um filme 3D seja projetado na tela com a claridade correta, essa lâmpada precisa ser configurada em uma força muito maior do que em um filme 2D, isso porque (reduzindo bastante a questão para ficar mais fácil de entender) um filme 3D possui duas camadas de filme, enquanto o 2D só possui uma. Ué, se a luz precisa atravessar duas camadas, ela precisa ser ligada em uma potência maior, correto? Sim. Mas, como já dito, isso fará com que ela se estrague mais rápido e o gerente daquela sala tenha de desembolsar uma graninha para trocá-la. É aí que mora o problema.

Pra economizar (mesmo com os preços de ingressos estando incrivelmente altos no país), muitos gerentes das salas de cinemas configuram a lâmpada do projetor para exibir filmes em 3D com a mesma potência que usam para filmes em 2D, o que deixa o filme extremamente escuro. E isso nem é segredo. A artimanha é tão conhecida que o diretor Michael Bay, em 2011, enviou uma carta aberta aos exibidores do mundo todo pedindo com extrema educação que, por favor, configurassem corretamente os projetores para oferecerem a quantidade de luz necessária nos cinemas para que o público tivesse a melhor experiência com Transformers: O Lado Oculto da Lua.

Algumas vezes, até dá pra passar. Um filme em animação, com cores vibrantes e tons mais claros, ainda permite que enxerguemos com certa precisão os objetos em cena. Mas e quando assistimos a Animais Fantásticos e Onde Habitam ou a Mulher-Maravilha, com uma paleta de cores mais dessaturada e tons mais escuros, que dão sobriedade ao filme e contribuem para a fotografia acertada do longa, como fica?

A título de curiosidade, eu pude conferir Animais Fantásticos em duas redes de cinemas no Rio de Janeiro em 3D e a diferença é gritante. Enquanto uma das salas se preocupou em configurar a lâmpada na intensidade certa, era praticamente impossível entender o que estava na minha frente nas cenas noturnas quando fui rever no outro cinema, que usava a lâmpada no mínimo possível.

Você, como cliente, tem poder de voz. Ao assistir a um filme em 3D, não culpe o diretor, o produtor ou o filme se achar que a imagem estava muito escura. Desconfie da sala de cinema que você escolheu. Tirar a dúvida é fácil: basta levantar os óculos por alguns segundos. Mesmo com as imagens misturadas, você perceberá a diferença de brilho (não, não são os óculos que escurecem a tela). Já percebeu que quando esses mesmos filmes são lançados em Blu-Ray 3D a imagem está corretamente iluminada?


Pra economizar, muitos gerentes das salas de cinemas configuram a lâmpada do projetor para exibir filmes em 3D com a mesma potência que usam para filmes em 2D, o que deixa o filme extremamente escuro.


Se você notar que a qualidade de projeção da sua sala de cinema que costuma frequentar não está boa e está comprometendo a sua experiência, você tem todo o direito de reclamar. A maioria das redes no país tem canais de atendimento onde você pode registrar a sua insatisfação. E, sim, em grande parte dos casos elas respondem com um parecer. Basta contar o ocorrido, o dia, a hora da sua sessão, o filme que você viu e em qual sala de qual cinema:

Kinoplex
Espaço Itaú
Cineflix
Cinemark
Cinépolis
Cinesystem

Gostar ou não do 3D é um direito seu. Mas, se você quer o tridimensional, é também seu direito que o valor caro do seu ingresso te proporcione uma experiência decente.

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