CRÍTICA: O Fim dos Tempos

Críticas
// 16/06/2008

Seria muito difícil para M. Night Shyamalan conseguir fazer um filme pior que A Dama na Água, mas pelo menos ele mostra, com o recém-lançado O Fim dos Tempos, que está tentando essa proeza.

O Fim dos Tempos
por Breno Ribeiro

Partindo de uma idéia que soa interessante no começo do filme (pessoas se suicidando), Shyamalan parte para outra idéia levemente menos interessante, mas ainda boa embora confusa (a de que bombas químicas terroristas seriam a causa da onda de suicídio), e ele não pára por aí. Um pouco perto do começo da projeção, quando tudo já estava mais ou menos encaixado na cabeça das pessoas, surge a teoria que serve como base do filme, é sustentada e aceita com facilidade pelos personagens e ainda serve de alerta ambiental (num filme onde mostram leões comendo os braços das pessoas? Pára, né?): A que as plantas por se sentirem ameaçadas começaram a liberar gases tóxicos que causam esse efeito suicida nas pessoas.

Embora a fachada do filme já seja suficientemente bizarra, ela serve só de cenário para o que há por vir, já que de idéias bizarras podem surgir filmes, no mínimo, assistíveis. Uma das cenas que mais ilustram esse cenário bizarro construído pelo filme chega naquela em que o personagem de Mark Wahlberg (péssimo, aliás) conversa com uma planta, explicando que eles só estão na casa dela (!!!) para pegar algumas coisas para comer e usar o banheiro. A parte mais estranha dessa cena não consiste nem no fato de a planta ser de plástico, como o personagem logo nota, mas de eles terem entrado naquela casa procurando por comida e outras coisas quando existia uma placa enorme e muito bem focalizada pela câmera escrito “Casa Modelo” (tipo de casa que existe nos EUA para os arquitetos mostrarem suas idéias, mas onde ninguém vive). Várias cenas mal feitas desse tipo poderiam ser citadas, embora nenhuma chegue ao nível de completa demência que é todos os personagens correndo do vento (!!!!!!), na esperança de que não fossem intoxicados pela toxina das plantas.

Outra coisa interessante nesse tipo de filme, onde falsas catástrofes se aproximam, é o clichê caricatural dos personagens, sem contar o já-conhecido fato de quais são os personagens que sobrevivem até o fim do filme e quais foram brevemente alocados para tentar captar a dó do espectador quando eles morrerem. Aliás, citando mais uma cena sem-noção, essa também centrada no infantil e imaturo personagem de Wahlberg, que é quando ele diz para o corpo de um morto que eles “vão sair bem dali”. Brincou, né?

As atuações também fazem parte do ciclo de besteiras do filme. Nem mesmo Mark Wahlberg que costuma fazer um trabalho no mínimo razoável em seus filmes consegue convencer como o inseguro Eliot Moore. O mesmo pode-se dizer do consistente John Leguizamo que, cheio de caretas e trejeitos com a boca, torna seu personagem mais chato do que já seria pelo roteiro fraco de Shyamalan. Já a sempre insossa Zooey Deschanel continua sua trilha rumo ao nada e a menininha Spencer Breslin parece mais uma figurante mal contrada.

A trilha sonora soa irritante, pois há sempre uma aura de ameaça no ar, ameaça essa que nunca chega de fato a se concretizar, pelo menos não com quem deveria ser (quem sabe se os personagens principais morressem, fossemos apresentados a figuras no mínimo menos rasas).

Outra coisa que incomoda é o fato de haver essa idéia velada, mal-feita e um tanto quanto tosca de uma grande história de amor envolvendo o casal principal. Aliás, história de amor entre pessoas já casadas não funciona bem a não ser que eles se separem em algum momento da projeção ou se mostrem de fato sempre muito apaixonados, mas nenhum dos dois acontece durante o filme. A não ser no final, quando os personagens decidem sair dos lugares que os protegiam das toxinas (Shyamalan ignora durante todo o filme que o ar também passa por frestas como buracos de fechadura em portas, mas isso é um mero detalhe – nem é) e escolhem por morrer juntos.

Por falar nisso, a sorte é uma coisa muito interessante nos personagens de Shyamalan, pois eles saem de seus esconderijos um minuto depois de as plantas resolverem acabar com a brincadeira da matança coletiva de repente (tão de repente como começaram). O final do filme é todo um emaranhado de idiotices, por começar na cena em que um cientista tenta explicar a razão do ataque-vegetal como uma forma de aviso do que viria a seguir, só para no final dizer a mesma frase dita por um estudante no início da projeção para que Shyamalan sinta que atingiu uma espécie de ciclo.

é a prova máxima de que não se pode julgar um diretor/roteirista por seu trabalho inicial, o que é uma pena. Um declive deveras triste para alguém que começou tão bem e prometia render tantos frutos. É o fim dos tempos alguém se perder tanto assim (com um título desses, não usar um trocadilho seria sacrilégio).


The Happening (EUA, 2008). Suspense. 2oth Century Fox
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Zooey Deschanel, Mark Wahlberg

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Categorias
Críticas, Suspense, Terror