O preconceito em Hollywood e por que James Bond será sempre o mesmo

Editorial
// 03/06/2016
idris-elba

Existem redutos em Hollywood onde somente homens heterossexuais caucasianos podem participar. Quando há alguma alteração no gênero e na cor de personagens longamente estabelecidos, um alvoroço constrangedor é ouvido pelos labirintos das redes sociais, tornando qualquer tentativa de fazer um filme com alguma minoria no protagonismo da história um risco para os estúdios.

Já vimos esse caso quando a 20th Century Fox resolveu escalar Michael B. Jordan para viver Johnny Storm/Tocha Humana no reboot de Quarteto Fantástico, quando J. K. Rowling estabeleceu que Dumbledore era homossexual, quando a Marvel jogou o deus do trovão Thor para escanteio e transformou Jane Foster na Lady Thor e, mais recentemente, quando divulgaram o trailer do remake de Caça-Fantasmas somente com personagens femininas.

Um dos principais pilares desse reduto de privilégios no cinema é o espião com licença para matar. James Bond voltou a ser notícia essa semana, meses após o último longa, Spectre, não agradar a crítica especializada e o público. Daniel Craig, que interpretou o espião nos últimos quatro filmes da franquia, recusou mais de 80 milhões de euros (é, isso mesmo que você leu) para fazer seu quinto filme, deixando a vaga aberta para outro assumir o posto. Desde que não seja negro ou mulher.

Há alguns meses, quando o primeiro rumor com relação ao não-retorno de Craig surgiu, nomes começaram a pipocar por fóruns e sites de cinema. Um deles era o de Idris Elba, cujo currículo não deixa nenhuma dúvida de que é um grande ator, mais do que capaz de interpretar qualquer papel que lhe seja apresentado. Mas a simples menção de um negro assumir um personagem originalmente branco foi suficiente para fãs conservadores despejaram ódio e racismo pela web. O maior exemplo de que um negro num papel de um branco incomoda foi a resposta de Anthony Horowitz, autor do último livro de James Bond, que disse “pra mim, Idris Elba é um pouco grosseiro pra esse papel. Não é uma questão de cor. Acho ele um pouco ‘de rua’ para o Bond. É questão de ser suave? Com certeza!”. Ora, Elba já viveu um gangster, um general do exército americano, um detetive inglês e até mesmo um deus nórdico (que também lhe rendeu uma enxurrada de racismo). Isso significa que Elba é capaz de criar personagens de todos os tipos e, mais importante, de nos fazer crer que eles possam existir de verdade, como qualquer bom ator.

gillian-andersonRecentemente, após uma brincadeira de alguns fãs no Twitter, Gillian Anderson (a Scully de Arquivo X) disse que adoraria viver Jane Bond num próximo filme, transformando um personagem que sempre foi homem em uma mulher, o que fez, novamente, outros milhares de fãs conservadores despejaram ódio e machismo.

É lógico que um homem negro e, muito menos, uma mulher seriam cogitados como os próximos 007. Isso porque negros e mulheres já têm seus papéis definidos na franquia. Revisite os filmes da série: negros, quando não são ajudantes dos grandes vilões ou não são vilões menores (sem qualquer história ou desenvolvimento), são ajudantes do espião inglês (como Jeffrey Wright, o Felix Leiter em Casino Royale e Quantum of Solace, também com pouco ou zero desenvolvimento) e, na pior das hipóteses, apenas figurantes que serão empurrados para que o herói consiga chegar ao seu destino. Já as mulheres têm a única função de serem as eye-candy, servindo de troféus do inimigo ou amantes de Bond (as chamadas Bond Girls). Essas, inclusive, merecem um texto exclusivo. Sempre exuberantes, com uma falsa independência e uma falsa capacidade de ser badass. Quando não estão prendendo a atenção do público, desfilando em vestidos justos ou biquínis cavados, estão fazendo as perguntas que a audiência precisa saber, colocando todos na mesma página pra que a história possa avançar. Uma função que recai sobre seus ombros é a de fazer a história avançar e colocá-las em perigo é a maneira mais fácil de mover o herói para um objetivo e mostra-lo que seu trabalho vai além de salvar o império britânico. Matar uma Bond Girl também é outro fator que incentiva o espião a caçar o vilão e o faz sofrer (só um pouco) após perder a amada de duas noites. Existem outras mil maneiras de transformar o papel da mulher em algo banal nos filmes do 007, mas isso é, como disse, coisa pra outro texto.

Você pode se indagar “mas e a M? Ela é mulher e não se encaixa no padrão citado”. Verdade. A M de Judi Dench fugiu do tipo fácil de “donzela em apuros” e se tornou a superiora do espião, sendo uma das poucas a peitá-lo, inclusive debochando e esclarecendo que não gosta dele, dizendo, ainda, que o considera um “dinossauro sexista e misógino, uma relíquia da Guerra Fria” e que não hesitaria em enviá-lo para a morte se isso significasse vencer o inimigo. A M de Dench é uma mulher inteligente, sagaz e competente o bastante pra chefiar o Serviço Secreto Britânico, mas ainda mostra, em certos momentos da trama, consideração e uma certa preocupação com o seu subordinado, sendo uma espécie de figura materna para o herói órfão. Mas como bom dinossauro sexista, Bond constantemente ignora as ordens de uma mulher superiora, se considerando mais capaz de resolver a situação a sua maneira e, frequentemente, se dando mal e causando mais confusão para a chefe arrumar – e isso é mostrado com mais clareza nos filmes estrelados por Daniel Craig e Pierce Brosnan.

Ficam claros quais são os critérios para escolher o próximo James Bond. A decisão é tão óbvia que uma busca no Google já apresenta 10 opções que parecem ter saído do mesmo forno hollywoodiano. Quem espera por novidades ou uma fuga do mesmo espião criado nos anos 60, pode desistir. Mulheres e negros não são vistos como capazes de serem nada além de coadjuvantes nesse universo. O espaço para uma diretora no próximo filme seja, talvez, uma mera desculpa como “temos mulheres em papéis importantes nessa produção” e ganharem o selo de “filme com representatividade” para se vangloriarem num futuro próximo por terem feito nada menos do que a obrigação. Ou talvez ter um bode expiatório caso o filme faça feio nas bilheterias e críticas.

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