O primeiro prêmio de Melhor Atuação, e não de Ator ou Atriz, significa uma mudança?

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// 08/05/2017

No último fim de semana, durante o MTV Movie Awards (que vem se repaginando pra fugir da ladeira abaixo em que entrou nos últimos anos), Emma Watson foi laureada com o prêmio de Melhor Atuação pela sua personagem Bela em A Bela e a Fera. E essa foi, na verdade, a primeira vez que um prêmio reconheceu um artista por seu trabalho, sem separação de gênero. Temos um precedente.

A ideia não é nova. Há algum tempo não muito curto, uma movimentação ainda discreta vem levantando o questionamento sobre o porquê da categoria de Melhor Atuação ser separada entre Melhor Atriz e Melhor Ator em todas as premiações existentes. Afinal, se existe o prêmio de Melhor Direção e não os de Melhor Diretor ou Melhor Diretora, por que justo na categoria que celebra o talento do ser humano em se passar por outro (seja esse outro um homem, mulher, transexual, agênero ou não-binário) extirpa-se uma de suas principais características empáticas? Em um momento da sociedade em que o diálogo sobre identidades de gênero (que só diz respeito ao indivíduo e a mais ninguém, cabendo aos demais respeitar e não julgar ou oprimir) emerge como uma poderosa aliada a tantos combates de intolerância (como racismo, homofobia e machismo), não seria a hora de unir as duas categorias em uma só?

À época da questão racial no Oscar 2016, Chris Rock chegou a tocar no assunto de maneira irônica em seu discurso de apresentador na cerimônia:

Se você quer negros indicados todo ano, você precisa ter categorias negras. A gente já tem isso com homens e mulheres. Pensa só: não existe real motivo para existir uma categoria masculina e uma feminina pra atuação. Vamo lá, num tem! Não é que nem estrada ou grama. Robert De Niro nunca disse “melhor eu diminuir minha atuação, assim a Meryl Streep consegue me alcançar!”

Faz sentido? Faz. Por um lado, é bom termos duas vezes mais chances de premiarmos bons talentos. Por outro, se está claro que homens e mulheres têm a mesma capacidade desempenhando seus trabalhos técnicos (como bem deixam claro as outras categorias não divididas por sexo), qual o motivo para a diferenciação nesta, uma vez que atuação também é técnica?

Em seu discurso de aceitação do prêmio (que foi entregue por Asia Dillon, que interpreta um personagem de gênero não-binário na TV), Emma apostou no começo dessa conversa com o grande público de uma maneira bastante sutil:

Antes de mais nada, sinto que devia dizer algo sobre o prêmio, o primeiro de atuação na História que não separa os indicados por sexo. Ele diz algo sobre como vemos a experiência humana. A ideia da MTV em criar um prêmio de atuação sem diferenciação de gênero terá significados diferentes pra cada pessoa. Mas, para mim, significa que atuar é a capacidade de se colocar no lugar do outro e que isso não precisa ser separado em duas categorias diferentes. A empatia e a capacidade de usar a imaginação não devem ter limites. Isso significa muito pra mim, tanto pela vitória como por ter recebido o prêmio de você, Asia. Obrigada por ter me ensinado de uma maneira tão carinhosa, calma e abrangente.

E você? Acha que esse prêmio representa uma voz tímida que poderá resultar em uma mudança no futuro? Você concorda com a ideia? E, principalmente, se acha que as categorias devem ser mantidas separando homens e mulheres, qual a razão para isso, visto que ambos têm capacidades iguais em atuar brilhantemente e ambos podem (e irão) interpretar qualquer tipo de personagem?

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