O Último Tango em Paris: O silenciamento pela arte

Editorial
// 08/12/2016

No ano de 2007, o artista costa-riquenho Guillermo Vargas, conhecido como Habacuc, chocou o mundo com sua concepção de “arte”. Hababuc foi responsável pela polêmica manifestação artística que consistia na exposição de um cachorro deixado a morrer de fome e sede em uma galeria de arte na Nicarágua. O público que testemunhou essa discutível forma de expressão se indignou e o assunto se espalhou pelo mundo, originando muita discussão sobre o limite da arte. O artista, claro, justificou sua escolha, disse tratar-se de homenagem a Natividad Canda, morto após um ataque de dois cães; também disse que a exposição pretendia desnudar a hipocrisia das pessoas, que, segundo ele, ficam chocadas com um animal definhando em uma galeria, mas ignoram os demais que estão soltos nas ruas enfrentando situações igualmente indignas. A curadora responsável pela exposição argumentou que o cachorro só teria ficado amarrado durante as horas pelas quais durou a visitação, e que, durante o restante do tempo, o animal teria sido visto livre e alimentado. Seja como for, sendo a “obra de arte” uma fraude ou não, a crueldade do artista não foi perdoada por ninguém que tivesse o menor resquício de empatia pela vida do animal.

O episódio com Habacuc foi apenas mais um entre tantos casos cometidos sob a justificativa do “tudo pela arte”. Esta semana o mundo artístico ganhou mais um motivo para se indignar. Em vídeo gravado no ano de 2013 e divulgado somente agora, o cineasta Bernardo Bertolucci, diretor do filme O Último Tango em Paris (1972), revelou que a famosa cena de sexo não consentido entre os protagonistas foi planejada sem o conhecimento de Maria Schneider, que interpretou Jeanne e tinha apenas 19 anos na época. A própria atriz já havia revelado, em 2007, que a sequência não estava no script e que se sentiu humilhada por ter de se submeter à filmagem em que Paul (Marlon Brando) usa manteiga como lubrificante para praticar sexo anal com a moça. Segundo ela, suas lágrimas eram reais. O depoimento de Schneider vai ao encontro da intenção do diretor, revelada por ele mesmo: ele queria a reação da mulher, não da atriz. O resultado é uma cena perturbadora em que Jeanne grita “Não! Não!” e precisa ser contida por Paul enquanto ele a penetra. A cena acaba em lágrimas que, como já se sabe, são consequência do constrangimento pelo qual a jovem atriz passou.


A própria Maria Schneider já havia revelado que a sequência não estava no script e que se sentiu humilhada por ter de se submeter à filmagem em que Marlon Brando usa manteiga como lubrificante para praticar sexo anal com a moça.


Os maiores problemas na história dos bastidores de O Último Tango em Paris são as constatações de que 1) a palavra de uma mulher abusada é frequentemente desacreditada e ignorada e 2) um homem pode declarar publicamente ser o autor da ideia de abusar sexualmente de uma mulher com a naturalidade de quem confessa uma travessura de criança.

maria-schneiderMaria Schneider, com 19 anos em O Último Tango em Paris

No primeiro ponto, não há novidade nenhuma. Não é de hoje que sabemos que é necessário que uma mulher abusada tenha muita coragem para denunciar seu agressor. É comum que ela acabe como a megera que tem somente a intenção de acabar com a vida do homem, a piranha, a puta, a que pediu. Quando se trata de astros queridos e aclamados por Hollywood, a situação se agrava muito, pois nesses casos, além da mulher ser acusada de querer comprometer a reputação e a carreira do agressor, ela também é taxada como uma simples interesseira em busca de fama e dinheiro. Não é fácil a sociedade enxergar que pessoas de sucesso também cometem erros e que, por trás de muitas delas, existem verdadeiros monstros. Sucesso nunca foi sinônimo de caráter; não é sequer garantia de genialidade. Mas agora, com a palavra do próprio Bertolucci, o assunto volta à tona e o público passa a reconhecer o fato como ele realmente é: um abuso. Não é absurdo sequer discutir a possibilidade de se considerar o que foi feito com a atriz um estupro, pois, apesar de não ter havido sexo real durante a filmagem, no Brasil, por exemplo, estupro é assim definido pelo Código Penal em seu Artigo 213: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. Ou seja, o artigo não fala da necessidade de penetração para configurar o ato como estupro. A própria Maria Schneider declarou que ela se sentiu um pouco estuprada e que, se fosse mais esclarecida na época, teria chamado o advogado dela e se recusado a fazer a cena, que não estava prevista originalmente.


Não é de hoje que sabemos que é necessário que uma mulher abusada tenha muita coragem para denunciar seu agressor. É comum que ela acabe como a megera que tem somente a intenção de acabar com a vida do homem, a piranha, a puta, a que pediu.


A segunda questão é sintomática da cultura de estupro à qual estão submetidas todas as mulheres do mundo. Além de arquitetar o constrangimento e o sofrimento de Maria Schneider, Bertolucci aparentemente não enxergou nenhum problema em expor para o mundo o que ele e Marlon Brando tinham causado à atriz. Pudera: ele não sofrerá nenhuma consequência, já que o filme é considerado uma obra-prima do cinema e os dois atores envolvidos na cena já são falecidos. Alguns artistas expressaram sua indignação com o fato, mas não deve passar disso; Schneider morreu sem que a ela fosse dado o devido crédito na denúncia do abuso. Assistimos a um cineasta confessar uma violência contra uma atriz de 19 anos e a discussão que se levanta é sobre o limite da arte, se é válido fazer tudo em prol de conseguir reação legítima em uma cena antológica. Deveríamos usar esses casos de forma educativa para que outras não sofram o que foi feito com a jovem Schneider, mas a indústria e o público continuarão a minimizar denúncias do tipo devido ao seu pânico de desconstruir a imagem heroica que se cria de celebridades que são, no fim de tudo, apenas seres humanos, suscetíveis a cometer erros como qualquer outro. Torçamos para que todo abusador confesse seus crimes, pois somente assim suas vítimas encontram um pouco de justiça e credibilidade.


Deveríamos usar esses casos para que outras não sofram o que foi feito com Schneider, mas a indústria e o público continuarão a minimizar denúncias do tipo devido ao pânico de desconstruir a imagem heroica que se cria de celebridades.


Infelizmente, o caso de Maria Schneider não é isolado. Alfred Hitchcock, Roman Polanski, Stanley Kubrick e Michael Bay são apenas alguns exemplos de cineastas sobre os quais pesam denúncias de abuso em set, sejam eles sexuais ou psicológicos; entretanto, raramente as vítimas são ouvidas. E, quando ouvidas, são fortemente criticadas e julgadas no lugar de seus agressores. Se ainda há dúvida sobre a necessidade de se falar sobre a cultura do estupro, abusos constantes cometidos contra mulheres e a falta de voz das vítimas, basta ler alguns comentários em notícias sobre o caso de O Último Tango em Paris. Ainda que Bertolucci tenha confessado o que fez com a atriz e ele mesmo tenha reconhecido que foi algo cruel, muitos ainda tentam minimizar o caso e relativizar os acontecimentos, argumentando sobre a amizade entre Shcneiner e Brando e conjecturando sobre a legitimidade do abuso baseando-se no fato de não ter havido penetração durante as filmagens. A diferença entre o cãozinho exposto por Hababuc e Maria Schneider é que o primeiro não precisou da confissão do artista para contar com o engajamento e a empatia social.


Ainda que Bertolucci tenha confessado o que fez com a atriz e ele mesmo tenha reconhecido que foi algo cruel, muitos ainda tentam minimizar o caso e relativizar os acontecimentos.


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