O Xadrez Secreto dos Blockbusters Gay

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// 18/04/2017

Neste exato momento, por toda Hollywood, há uma guerra secreta sendo travada. Em e-mails e memorandos de grandes estúdios e pequenas produtoras, a luta por representatividade no entretenimento de massa vem ganhando espaço e, cada vez mais, há diversidade de gênero, raça e sexualidade nos papéis que vemos na tela grande. A causa LGBT, em especial, viu em 2016 e 2017 três grandes franquias com personagens secundários assumidos – Sulu (John Cho) de Star Trek: Sem Fronteiras, a Ranger Amarela Trini (Becky G.) em Power Rangers, e LeFou (Josh Gad) em A Bela e a Fera, o primeiro de toda a história da Disney. Há progresso no campo de batalha. Tímido, mas há.

trini

Entretanto, um grande tabu permanece intacto nos blockbusters americanos: o beijo gay. Sim, atrás das séries de TV e streaming, dos quadrinhos, da publicidade, das novelas da Globo, e do próprio cinema independente (2017 também foi o ano do Oscar de Melhor Filme para Moonlight), os filmes de grande orçamento ainda não retrataram até hoje um beijo sequer entre dois homens. A resistência da indústria é tanta que até os beijos que chegam a ser gravados acabam sendo cortados na edição, como nos casos do novo Tarzan e do próprio Star Trek. Raros são os beijos homossexuais que chegam a um filme, e estes são exclusivamente femininos (talvez por serem considerados “mais aceitáveis” pela audiência, como um no recente Ghost in the Shell), mas também esses não refletem um arco romântico entre as personagens, pelo contrário, são um adendo para o trailer. Seria a representação positiva e completa de um relacionamento gay no cinema das massas uma causa perdida?

Um romance gay no centro da narrativa de uma grande franquia de ação/aventura pode por vezes parecer uma realidade distante, mas é, no fim, inevitável – e os executivos dos e-mail e memorandos sabem disso. De uma perspectiva puramente econômica, se por um lado há o risco de boicotes e de alienar certos mercados internacionais como China e Rússia, por outro, quebrar este tabu histórico em grande estilo pode garantir um marketing instantâneo a baixíssimo custo, bilheterias cheias e um lugar na história. E há indícios que não apenas uma, mas duas franquias de peso podem estar movendo as peças para dar lugar a estas histórias: Star Wars e Harry Potter.

A Disney lançou o primeiro trailer oficial de Star Wars: Os Últimos Jedi apenas dias depois da confirmação de Jude Law como intérprete do jovem Alvo Dumbledore na sequência de Animais Fantásticos e Onde Habitam. As duas notícias, em conjunto, movimentaram as redes sociais na última semana e reacenderam as especulações sobre o futuro de dois possíveis casais muito populares com o público LGBT.


Se por um lado há o risco de boicotes e de alienar certos mercados como China e Rússia, por outro, quebrar este tabu em grande estilo pode garantir um marketing instantâneo, bilheterias cheias e um lugar na história.


A relação entre o stormtrooper Finn e o piloto Poe foi, para muitos fãs, uma das partes mais envolventes de O Despertar da Força. Uma jaqueta dada de presente, um movimento de câmera e a grande química entre os atores John Boyega e Oscar Isaac durante todo o filme garantiram o surgimento de uma legião de apoiadores do casal que surpreendeu até os envolvidos na produção do filme. No papel, a introdução de uma subtrama romântica no episódio VIII faz sentido, uma vez que o segundo filme das trilogias Star Wars até agora sempre apresentou a história de um casal em meio aos sabres de luz, batalhas espaciais e intrigas políticas (os amados Han e Leia em O Império Contra-Ataca e os não-tão-amados-assim Anakin e Padmé em O Ataque dos Clones). Além disso, a nova trilogia sob comando de J. J. Abrams tem a diversidade como ponto chave, através da centralidade da protagonista feminina Rey (Daisy Ridley) e dos próprios Finn e Poe, cujos atores são negro e latino, respectivamente.

Poe e Finn

Não seria exagero afirmar que a Disney está posicionada para fazer uma grande e histórica jogada, caso quisesse. Ainda assim, mesmo levando em conta as declarações do elenco, do produtor, o novo tratamento do roteiro e este tweet do próprio diretor Rian Johnson, tudo isso pode não passar (e provavelmente não passa mesmo) de pura conjectura e otimismo extremado. O mesmo, entretanto, não pode ser dito de Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Se um romance homossexual em Star Wars requereria uma vontade ativa da Disney em comprar esta briga, a Warner, ao contrário, deverá explicações caso não inclua o romance entre o jovem Dumbledore e Grindewald (Johnny Depp) na série de prequels da saga Harry Potter. A confirmação de que o diretor de Hogwarts estará presente na continuação de Animais Fantásticos e Onde Habitam apenas reforça a teoria de que o plano final para estes filmes é contar a história da primeira guerra bruxa, antes de Voldemort, que quase resultou na exposição do mundo da magia aos trouxas. E ao seguir esta narrativa, é inescapável que se esclareça a relação dúbia de amor existente entre os dois bruxos, que foi sugerida em diversas ocasiões pela autora J. K. Rowling. Esta, inclusive, tirou Dumbledore do armário em 2007 e, ao que tudo indica, quer tanto passar esta história a limpo que fez mais cinco filmes com este propósito.


Se um romance homossexual em Star Wars requereria uma vontade ativa da Disney em comprar esta briga, a Warner, ao contrário, deverá explicações caso não inclua o romance entre o jovem Dumbledore e Grindewald (Johnny Depp) na série de prequels da saga Harry Potter


A homossexualidade, porém, não está apenas no futuro da saga Animais Fantásticos, mas também no presente. O próprio filme de 2016, que tinha a árdua tarefa de reintroduzir um universo já conhecido com personagens e época completamente novos, também preparou o arco temático do que está por vir no a longo prazo da franquia, e desenhou diversos temas que remetem à luta LGBT. Sem muitos spoilers, o conflito central do longa está baseado nos terríveis danos causados pela repressão forçada daquilo que se é por natureza, representado na figura dos Obscurials. De forma mais ampla, ainda, o próprio antagonismo delineado entre bruxos e trouxas que se desenvolverá ao longo da saga se baseia no medo de um grupo minoritário em se assumir perante uma sociedade que não os compreenderá. Neste cenário, a visão de mundo de Grindewald ecoa similarmente à de Magneto na saga X-Men, como o líder de uma resistência que prefere o conflito aberto do que viver se escondendo.

jude law

Consequentemente, há sólidas razões para acreditar que os spinoffs de Harry Potter – dentre todas as maiores franquias do cinema e justamente uma daquelas mais voltadas o público juvenil – possam vir a revolucionar a forma com que blockbusters abordam temáticas LGBT, e que o primeiro beijo gay neste ramo do entretenimento possa ser entre Jude Law e Johnny Depp.

Star Wars e Animais Fantásticos à parte, a luta por representação de grupos minoritários na mídia continua. Há exemplos de demandas de melhores representações LGBT de Frozen ao Capitão América, e estas são as vozes que efetivamente promovem a mudança gradual. O “beijo gay” é uma questão de tempo mas não é, nem deve ser, um fim em si mesmo. Ele é, antes de tudo, o fruto de um entendimento alastrado de que o que vemos refletido na tela grande pode e deve ser mais plural, mais humano e, claro, mais criativo. E que todos ganhamos com isso.

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