Onde habita o problema de Johnny Depp

Editorial
// 03/11/2016

Ainda lembro com carinho de quando Harry Potter estava em sua época de ouro. Aqui no Brasil também estavam no auge os fóruns de fãs (a quem eu quero enganar? Era Orkut mesmo), que ocupavam o hiato sem notícias relevantes com especulações ou analisando quaisquer pistas sobre filmes e livros. Era uma loucura: J.K. Rowling dava um espirro em Edimburgo e nós especulávamos aqui que o mundo bruxo passaria por uma catástrofe. As raras entrevistas dadas por ela eram o estopim de pequenos pandemônios; centenas de teorias precisaram apenas de uma frase solta para virarem longos tópicos de discussão entre os mais desesperados por informações. Faziam parte desse cotidiano enlouquecido as escalações de elenco dos filmes. Quem seria Sirius Black? Que cara teria a bela Fleur Delacour? Quem seria a intérprete da odiosa Dolores Umbridge? Será que essa menina será uma boa Luna Lovegood? E esse Horace Slughorn, como vai ser? Os fãs mais devotos sabiam nome, data de nascimento e trabalhos pregressos de cada coadjuvante que se juntava àquela família que passou 10 anos dando vida ao universo criado por Rowling. Os potterheads, que estavam mais órfãos que Teddy Lupin, finalmente voltaram a ser agraciados com o anúncio de novos filmes: estava dado o início à trilogia série de cinco filmes baseados em Animais Fantásticos e Onde Habitam, um anexo da série principal que fora escrito com a intenção de arrecadar dinheiro para projetos sociais ao redor do mundo.

Embora os novos longas não disponham do mesmo prestígio ou causem o mesmo impacto dos títulos originais, a divulgação feita pela Warner Bros. tem chamado a atenção dos fã mais saudosos. Os trailers comprovam que a equipe de produção dos filmes tem caprichado em efeitos e ambientação, com figurinos e cenários que nos remetem a uma Nova York dos anos de 1920. Certamente os fãs não serão surpreendidos com nenhuma “bomba”. Para protagonizar os filmes, foi escalado um dos novos queridinhos de Hollywood, Eddie Redmayne. Juntam-se a ele outros nomes que, apesar de não terem a importância de Maggie Smith, Michael Gambon, Ralph Fiennes, Gary Oldman e Alan Rickman, formam um elenco simpático e que tem circulado por produções grandes e queridas do público.

Estaria tudo bem se não fosse pelo anúncio que dividiu o fandom entre empolgados e indignados: a superestrela Johnny Depp fará parte do elenco da continuação, Animais Fantásticos e Onde Habitam 2, que se passará na cidade de Paris. Acredita-se, também, que Depp deva fazer uma participação ainda no primeiro filme, que estreia no próximo dia 17 no Brasil. Não se sabe ainda qual será o personagem do ator, mas fãs especulam que se trata do bruxo Grindelwald, que divide uma história importante com Dumbledore. A própria Warner ainda não confirmou e nem desmentiu a notícia dada por portais como o Entertainment Weekly e o Hollywood Reporter, mas tudo indica que devemos ter, sim, Jack Sparrow no universo de Harry Potter.

A escalação de Johnny Depp chega num péssimo momento da biografia do ator. Em maio deste ano, a modelo e atriz Amber Heard, ex-mulher de Depp, entrou com o pedido de divórcio que acabaria com o casamento de um ano do casal. Durante o processo, Amber acusou o ator de tê-la agredido com um celular durante uma briga e apareceu publicamente com o rosto machucado, além de ter publicado fotos que mostravam marcas da agressão. Além disso, foi divulgado pelo site TMZ um vídeo em que Depp aparece descontrolado na companhia de Heard, não deixando dúvidas de que o ator tem, de fato, episódios de fúria. A atriz conseguiu na justiça uma ordem de restrição temporária contra Johnny Depp. O casal se divorciou legalmente em agosto, após Amber Heard aceitar um acordo de $7 milhões e retirar a queixa de agressão contra o ex-marido. O dinheiro pago a Amber como indenização do divórcio foi doado para duas instituições, uma que cuida de mulheres agredidas e um hospital infantil.


Amber acusou o ator de tê-la agredido com um celular durante uma briga e apareceu publicamente com o rosto machucado, além de ter publicado fotos que mostravam marcas da agressão.


Após a divulgação sobre a participação de Johnny Depp nos filmes, muitos fãs foram aos portais de notícias para demonstrar sua decepção com a escalação do ator. É compreensível: como pode um grande estúdio convidar um ator envolvido em um episódio de agressão contra uma mulher para participar de uma série cinematográfica cuja audiência é majoritariamente formada por crianças e jovens? Por algo muito menos grave, Kristen Stewart foi rapidamente descartada da continuidade de Branca de Neve e o Caçador. Pode-se alegar que o contrato tenha sido fechado antes do escândalo ter se tornado público, pois as filmagens foram finalizadas no início do ano. Nesse caso, o que impediria a produção de filme de editar a suposta cena e substituir o ator? Aliás, o que impede que a cena seja simplesmente excluída e o gancho trabalhado apenas no segundo filme? Respondo: absolutamente nada. Talvez o contrato assinado por Depp tenha uma cláusula de rescisão milionária. Mais um erro. Por que pagar tão caro a um ator que não é garantia de sucesso há anos? Neste ponto, pode-se contestar um dos principais argumentos daqueles que defendem a escalação do ator – o de que ele traz visibilidade e dinheiro aos filmes dos quais participa. A última grande bilheteria de um filme com a participação de Johnny Depp foi Piratas do Caribe: Navegando em Água Misteriosas, em que ele, mais uma vez, interpretou o pirata Jack Sparrow – excelente personagem nos primeiros filmes, mas que tem afetado a atuação de Depp quando se trata de papéis excêntricos, a especialidade do ator. Há muito tempo o nome Johnny Depp não é garantia de sucesso entre público e crítica. Quando há o retorno de bilheteria, seus filmes são massacrados pela crítica; quando a crítica aprova, a arrecadação é pífia.


A última grande bilheteria de um filme com Johnny Depp foi Piratas do Caribe: Navegando em Água Misteriosas, em que mais uma vez interpretou o pirata Jack Sparrow – excelente personagem, mas que tem afetado a atuação de Depp quando se trata de papéis excêntricos. Há muito tempo o nome Johnny Depp não é garantia de sucesso entre público e crítica. Quando há o retorno de bilheteria, seus filmes são massacrados pela crítica; quando a crítica aprova, a arrecadação é pífia.


Também é questionável o papel de J.K. Rowling na escalação de atores para os filmes adaptados de seus livros. Apesar de ela não ter total poder sobre as decisões tomadas em relação a eles, sabe-se que ela teve influência direta na escolha de certos atores e que pode, sim, opinar sobre os caminhos criativos dessas obras. É de conhecimento dos fãs que a própria Rowling teve um casamento conturbado com o seu primeiro marido, Jorge Arantes, o português com quem teve sua primeira filha, que ela criou sozinha enquanto escrevia o primeiro Harry Potter. A autora, assim como Amber Heard, precisou solicitar uma ordem de restrição contra o ex-marido, que reapareceu em sua vida depois que ela conquistou fama escrevendo a série de livros que mudou sua vida. Diante de todo esse histórico difícil, os fãs estão se perguntando por que J.K. não impediu que alguém sobre quem pesa uma denúncia de agressão participe de filmes que têm como base o universo criado por ela.

Alguns fãs – de Johnny Depp – alegam que é necessário separar a vida profissional do ator de sua vida pessoal. Concordo, mas não em um caso de tamanha gravidade. O que artistas fazem em sua intimidade diz respeito somente a eles, mas não se pode ignorar quando uma mulher é agredida. Minimizar os fatos sobre a separação de Heard e Depp é dar respaldo para agressores, é dizer que ele tem carta branca para ser um péssimo exemplo de homem desde que continue executando seu trabalho com a afetação que lhe é característica. Ou alguém duvida que um Johnny Depp bruxo estaria muito mais para um Chapeleiro Maluco (Alice no País das Maravilhas, 2010) do que para um J.M. Barrie (Em Busca da Terra do Nunca, 2004)? Óbvio que o ator não deve ter sua carreira encerrada devido ao escândalo de sua recente separação, mas também não é necessário premiá-lo tão rapidamente com trabalhos em grandes franquias de filmes que têm apelo tão forte com um público jovem. Antes que ele seja envolvido em produções do tipo, ele precisa pagar por suas ações – e acredite, $7 milhões não pagam pela violência que tantas outras sofrem diariamente. Em questão não está somente o caso de Amber Heard, mas também as inúmeras vítimas que são desacreditadas e acusadas no lugar de seu agressor. À exceção de psicopatas, ninguém é favorável a agressões contra mulheres. O grande desafio, aqui, é fazer fãs enxergarem que seus ídolos também erram, e muito. Johnny Depp nunca reconheceu seus erros. Ao contrário, suas ex-mulheres e sua filha falaram publicamente para defender Depp e dizer que as acusações de Amber eram levianas. Para uma parte da opinião pública, a atriz tinha interesse financeiro na separação (mesmo que ela não tenha ficado com o dinheiro) e retirou a queixa porque nada foi provado. De fato, é muito difícil provar na justiça um caso como o de Amber Heard. Os machucados não são suficientes, o vídeo não pode ser utilizado em processo porque na gravação não foi feita com a autorização de Depp. Nesses casos, o melhor para as duas partes é o inevitável acordo: ela fica com a indenização; ele, com a reputação. É bastante normal que os homens, especialmente famosos e influentes, ganhem o benefício da dúvida. É normal que a sociedade se volte contra a mulher e acuse-a de querer “destruir a vida” de seu agressor.


Minimizar os fatos sobre a separação de Heard e Depp é dar respaldo para agressores, é dizer que ele tem carta branca para ser um péssimo exemplo de homem desde que continue executando seu trabalho com a afetação que lhe é característica. Óbvio que o ator não deve ter sua carreira encerrada devido ao escândalo de sua recente separação, mas também não é necessário premiá-lo tão rapidamente com trabalhos em grandes franquias de filmes que têm apelo tão forte com um público jovem.


É contra essa normalidade que muitos fãs de Harry Potter se posicionam. Um fandom que cresceu lendo livros que abordam assuntos como igualdade e tolerância não pode ser conivente com atos de violência contra minorias; isso vai contra tudo que J.K. tentou nos ensinar por meio dos seus personagens. As lições passadas pela série não podem esbarrar no rosto conhecido de um ídolo, mesmo que seja decepcionante descobrir que esse ídolo está longe de ser perfeito. A empolgação causada pela escolha de Johnny Depp fica ofuscada pela enorme decepção de parte dos seguidores da série, e não poderia ser diferente. Não seria fácil para a Warner Bros. dispensar um nome de peso como o de Depp, mas sem dúvida seria o caminho certo.

Ao menos, os fãs ao redor do mundo, em peso, já estão se mostrando veementemente contra a presença de Depp no longa: “Agora eu tenho que escolher entre dar meu apoio a um violentador doméstico ou Harry Potter” é só o começo desse artigo que o BuzzFeed sensacionalmente pulicou e que você lê aqui, em inglês.

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Editorial, Fantasia