Os Cavaleiros do Zodíaco | Como o filme pode aprender com outras produções?

Ação
// 22/05/2017
os cavaleiros do zodiaco

Na última sexta (19), a Toei Animation confirmou que o primeiro filme com atores reais a adaptar Os Cavaleiros do Zodíaco será produzido em breve. O longa, ao contrário do que se pensa de imediato, não será produzido no Japão e nem rodado no idioma nipônico. Dirigido pelo norte-americano Tomasz Baginski, da série The Witcher (da Netflix) e vencedor do Oscar de Melhor Curta Animado por Katedra, o filme muito provavelmente será feito nos EUA.

Essa não é a primeira tentativa de se levar para as telas um anime. Não será a última (Pokémon e Akira estão a passos devagar). E vendo o que produções semelhantes ofereceram nos últimos anos, tem muita coisa pra dar errado, muita pra ser acertada e um montão com boas chances de funcionar. Um olhar rápido no que é mais explícito nisso tudo já nos alerta sobre o que devemos torcer para não acontecer e com o que ficar ansioso.

De imediato, a ordem é não menosprezar. Dizer desde já que o filme “vai ficar bem tosco” ou que “não vai prestar” é puro preconceito de quem só enxerga uma maneira de se fazer filmes; de quem sempre acredita que todos os elementos de um desenho animado, série de TV ou livro serão transportados para a tela. Não vão. Apesar de já terem errado muito no passado, os cineastas sabem o que funciona e o que deve ser remodelado pra fazer sentido na linguagem cinematográfica. Isso se chama “processo adaptativo”. E, independente de você gostar ou não, funcionou muito bem em A Bela e a Fera, deu muito certo em Star Trek e se encaixou perfeitamente em Power Rangers (o melhor exemplo dos três de como duas linguagens muito parecidas – TV e Cinema – podem ser diferentes).

Whitewashing

A mais recente adaptação de anime, Ghost in The Shell, amargurou profundamente em críticas, público e bilheterias. Dentre os motivos, o maior foi aquele previsto por praticamente todo mundo (sério, todo mundo!) desde a pré-produção: o whitewashing. O termo se refere a quando um personagem de diferente etnia é interpretado por um ator caucasiano ao ganhar sua adaptação Hollywoodiana. Ou, traduzindo para o caso, Scarlett Johansson interpreta uma personagem japonesa. Foi o suficiente pro filme ser alvo de boicote por parte do público e sofrer na mão da crítica especializada. Resultado: prejuízo milionário pra Sony Pictures.

É possível que isso aconteça em Os Cavaleiros do Zodíaco? Sim. É o mais provável? Não. Se seguir uma das tramas do desenho original (a mais popular delas é a saga das Doze Casas – aquela em que os cavaleiros precisam passar pelos cavaleiros de ouro, um de cada signo do zodíaco, para salvarem Saori), será bastante difícil sustentar um whitewashing nas proporções necessárias para completar o elenco do filme sem perder a verossimilhança ou se desprender da coerência. E mesmo que os produtores resolvam adaptar a história para que ela aconteça nos EUA, Dragon Ball Evolution, de 2009, tá aí pra lembrar a nós e a eles que a ideia já foi testada e não dá.

dragon ball evolution

O tom

Uma das maiores preocupações é o tom. Cavaleiros do Zodíaco poderia ser um desenho incrível quando éramos crianças, mas é um daqueles produtos que dificilmente passam impune da crise dos 15 (quando a gente chega a certa idade e percebe que aquele conteúdo é bem tosco – e isso não significa ser ruim, de maneira alguma). As superbatalhas podem ser uma delícia de assistir, mas todo o dramalhão quase mexicano inserido nos diálogos (seja entre os personagens, seja em suas consciências) entre um golpe e outro são insustentáveis. Em um anime, a gente entende. Faz parte de sua fórmula, de seu desenvolvimento. O tempo tem um status diferente, o que até permite que ele “pare” para dar espaço a longas reflexões, explicações de planos mirabolantes e tortura psicológica. Em um filme, tudo isso pode até ser encaixado, mas em outro local, com outra abordagem.

Grafismo

É importante mencionar: você pode até não gostar dos uniformes do novo filme dos Power Rangers, mas eles fazem sentido. E Cavaleiros do Zodíaco pode seguir essa mesma abordagem. Reflita bem: uma armadura tem como fundamento proteger as áreas vitais e as que promovem a mobilidade de quem as usa. Por favor, quantas brechas os trajes dos cavaleiros deixam abertas? Existem inúmeras maneiras de se matar um cavaleiro com tanta área exposta assim. Além disso, é de se levar em consideração não o peso (porque haverá um motivo para que isso não seja um problema), mas a funcionalidade. Para que golpes ágeis sejam possíveis, as armaduras precisarão ser muito práticas, sem limitar os movimentos. Isso com certeza influenciará o design e a textura delas, impactando com vontade no visual final. Espere por grandes mudanças.

Todo o tom místico-lendário em meio à contemporaneidade permeará o longa (de novo: se levarmos em conta as tramas que conhecemos), o que vai definir como a Direção de Arte deverá ser construída e o acerto aqui a linguagem cinematográfica. Trocando em miúdos: vai precisar rolar um jogo de inteligência, criatividade e muito apuro estético aqui ou não vai ficar bacana.

Técnica

Há 20 anos esse filme seria impossível. Hoje, a tecnologia já traz todas as necessidades para que as batalhas mais espetaculares possam ser filmadas. A luta corporal de O Homem de Aço (2013) prova isso muito bem. No entanto, tem que investir pesado. Dragon Ball Evolution trocou o mano a mano por armas para economizar. Não deu certo. Power Rangers diminuiu as sequências de ação pra manter a qualidade sem gastar mais e focou na história. Ficou bem longe do quantitativo do seriado, mas infinitamente melhor. É um bom indício do que Cavaleiros pode seguir (bom visual, boa história, boa sequência de ação para o fim).

Química

Uma coisa é absolutamente certa: os Cavaleiros do Zodíaco precisam se entrosar. É imprescindível que haja uma química entre o elenco, que terá de ser muito bem escalado. É preciso que a gente possa assistir ao longa e saber dizer por quê cada um daqueles atores foi selecionado. Eles não só terão de ter a ver com os personagens que carregam, como também existir em grupo sem que um se sobreponha ao outro. Mesmo o Seiya.

os cavaleiros do zodiaco

Até agora, quase nada que adaptou um produto do gênero para o cinema deu em alguma coisa. Nem o público gostou, nem a crítica aprovou e a bilheteria sofreu. Isso não quer dizer, no entanto, que haja razão (motivo, sim) em esperar um filme ruim. Pode haver o receio, mas não a certeza. 2017 tem sido um ano cuja safra de filmes mostrou que é preciso, de verdade, ver para depois falar. Presumir por gosto pessoal ou por achismo é nocivo pra sua experiência e para o ambiente cinematográfico como indústria. E o espectador sempre vai sair perdendo. Estamos em uma era em que só Marvel e Star Wars ganham respaldo imediato quando uma nova produção é anunciada. Mas esse apoio precisa ser dado pra outras ideias também. Mesmo que você não esteja interessado, menosprezar não é uma boa saída. Isso só vai deixar quem está no topo muito mal acostumado, confortável e pouco inspirado em melhorar e trazer formatos novos de contar a história que você já gosta. Dê uma chance.

Um convite de quem nem é fã de Cavaleiros do Zodíaco, mas sim de coisa nova na tela.

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