Oscar 2012: Academia de Erros e Omissões Cinematográficas

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// 27/01/2012

Dando continuidade ao que tem sido falado sobre o Oscar 2012 até o momento, hoje expomos as mancadas do prêmio não de sempre, mas especificamente neste ano em sua categoria principal, Melhor Filme. Se a edição de 2012 conseguiu ao menos ser relativamente compatível com as indicações dos sindicatos dos artistas e técnicos de Hollywood, o mesmo não pode ser dito em relação ao que o público e a crítica acharam de toda a seleção feita pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para o seu maior prêmio.

Nunca haverá, em qualquer campo, uma premiação cem por cento justa. A possibilidade de agraciar todos os gostos não é nem sequer remota, é inexistente. E se por algum momento alguém acreditou que com o Oscar poderia ser diferente, esta pessoa está fadada a se frustrar se não mudar a linha de raciocínio.

Nos últimos anos, a equipe do Pipoca Combo procurou apontar que tipo de imagem os prêmios da Academia possuem recentemente – mais precisamente na última década. Textos diversos (como este) já foram publicados e a conclusão é sempre a mesma: não há como acertar totalmente; nem de nossa parte tentando adivinhar o que vai acontecer e nem por parte da própria Academia ao selecionar os melhores filmes. A questão agora não se trata mais do quão certeiro tem sido o Oscar, mas sim de até quantos pontos ele é capaz de perder em sua credibilidade anualmente. E, acredite, isso está acontecendo.

O Cinema, assim como toda forma de arte, reflete os impulsos do seu criador. O Cinema, assim como todo exemplar da indústria do entretenimento, reflete o tipo de público recorrente (e as variações de gênero e estilo dos filmes vão de acordo com os nichos aos quais se destina cada história). Mas Cinema é, a priori, arte. E artes como o Cinema e a música foram criadas para entreter o homem (claro, são um mecanismo de expressividade, mas se fossem tão só e apenas isso, um diário pessoal seria o suficiente – obviamente eu estou reduzindo muito a questão, já que o objetivo do texto não é esse). É inegável, portanto, que o Cinema se transforme constantemente. Isso é uma necessidade para que ele continue a existir e atrair as massas. O público muda quando a sociedade muda. Esta é modificada por seja lá quais eventos possam vir a ocorrer que traçam novos rumos comportamentais. E comportamento, aliado a tantos outros fatores, dita os moldes da arte.

Visto isso, é compreensível que um filme como Cavalo de Guerra, no passado tido como favorito, pudesse ter figurado entre os apostadores como um azarão antes dos indicados ao Oscar 2012 serem divulgados. E, se tratando da Academia, é compreensível que tenha sido indicado à categoria principal no final das contas. Steven Spielberg entrega com seu longa épico o tipo de cinemão que há muito fora perdido: um grande dramalhão amarrado por uma fotografia e trilha sonora que demarcam a carga emotiva da história, que se vale da fragilidade humana em compadecer do mais vulnerável para verter rios de lágrimas. Típica produção cujo molde já esteve presente no gosto compartilhado entre público, crítica e Academia, mas que hoje pode soar piegas para os dois primeiros grupos (mesmo considerando a presença do filme no Globo de Ouro), diferentemente de parte dos seis mil dinossauros estagnados votantes do Oscar. Poderíamos até apontar um retrocesso, mas a verdade é que, se tratando dos gostos da Academia, nunca houve um progresso relevante.

Não que Cavalo de Guerra seja um filme ruim. Mas se estamos falando de uma arte cuja receptividade é tão preocupante para os seus criadores quanto a qualidade, então devemos considerar em primeira instância o consenso. E o consenso a respeito de Cavalo de Guerra diz que é um bom e prazeroso filme, mas que suas qualidades estão mais relacionadas ao atendimento às fórmulas para abocanhar um espaço nas premiações do que em apresentar uma história realmente arrebatadora. E, obviamente, a Academia, mantendo os seus padrões de outrora, mordeu a isca. Compreensível, assim como a também indicação de Histórias Cruzadas, com sua trama cativante e atuações boas para fazerem dos personagens ótimos engodos para uma plateia que não enxerga o maniqueísmo manipulador. A cartilha está lá, a Academia aprova.

Cavalo de Guerra e Histórias Cruzadas são dois exemplos das mais fracas produções indicadas ao Oscar de Melhor Filme. Fracas, não ruins. Há de se lembrar de que, apesar de tudo, são considerados bons filmes com potencial em seu gênero. E quem diz isso também é o consenso. Mas de onde vem essa tal aceitação? Da comunhão do que a crítica e o público dizem. Com a internet veio a facilidade de difundir opiniões e quando estamos falando de estúdios que querem vender, não importa se aquele membro da plateia argumentou bem ou não. Importa é se ele gostou e se irá indicar o filme da vez. Entre a crítica a coisa não é bem assim. Argumentação importa. E sejamos honestos, quando se trata de julgar a qualidade de um filme, os (bons) críticos usam do bom senso muito melhor do que o público. Mas é este, entretanto, que move a indústria. Estaríamos, então, na direção certa quando julgássemos como melhores filmes aqueles que conseguem se equilibrar entre os dois terrenos. Mas poucas produções conseguem essa proeza absurda. Muitos dos indicados ao Oscar (em quaisquer anos), aliás, estão mais propensos a receberem o carinho da crítica do que do público.

Claro que isso não significa que apenas aqueles longas que conseguirem angariar fãs nos dois tipos de plateia deveriam ganhar seu reconhecimento no maior prêmio do Cinema; não. Até porque, por mais que o público tenda a divergir da crítica, é através desta que certo controle qualitativo é exercido. É graças aos dedos apontados por especialistas que os estúdios investem talentos e milhões de dólares para que seus filmes sejam mais verossímeis e não esnobem a inteligência de um público mais amador (amador, sim, mas não idiota). É por questões como esta que produções como Hugo, de Martin Scorsese, precisam figurar no Oscar. O longa é um dos maiores fracassos de bilheteria da Paramount nos últimos anos (o orçamento de 170 milhões nem sequer foi pago pelas bilheterias desde sua estreia em novembro nos EUA). O que torna claríssimo que Hugo não é o tipo de história que o público está interessado em assistir. Mas também não significa que, caso assistisse, não gostaria. E tampouco signifique que seja um filme ruim. Muitíssimo pelo contrário. É evidente o grande exemplo de como fazer Cinema que a aventura-família de Scorsese é. E isso merece todos os aplausos e indicações encaixáveis.

Mas e quando uma produção totalmente fora dos padrões daquilo que é necessário para uma premiação como o Oscar chega ao topo da mesma? É o caso de Tão Forte e Tão Perto. E aqui não há qualquer consenso que ajude. O longa mal foi assistido nos EUA e a crítica praticamente o fez uma vítima de massacre. No site coletor de críticas de cinema Rotten Tomatoes, Tão Forte e Tão Perto tem apenas 47% de aprovação (sendo 51% entre os críticos renomados), valores muito baixos. No Metacritics, cuja seleção é menos arbitrária (neste os críticos dão notas que serão somadas e gerarão uma média – ao contrário do apenas “é bom” ou “é ruim” do R.T.), o filme teve somente 46 pontos (com 19 críticas positivas, 12 mistas e 9 negativas). Um verdadeiro desastre (o pior somatório entre os outros indicados foi o de Histórias Cruzadas, 62 – considerado bom). Não há panos quentes a serem colocados: o filme não é fraco, é ruim mesmo.

A indicação é estranha? Muito; para nós. Há algum tempo, corre “à encolha” um murmúrio de que a Academia está sempre procurando indicar na categoria principal um filme de cada um dos grandes estúdios (o que se intensificou depois que ela abriu o número de indicações a Melhor Filme para dez nos últimos anos). Neste ano, Sony Pictures, Fox, Paramount e Disney já tinham seus slots certos (com Moneyball, Os Descendentes, Hugo e Histórias Cruzadas/Cavalo de Guerra, respectivamente). Mas a Warner Bros. ainda estava em jogo. Com apenas três produções no páreo (J. Edgar, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 e Tão Forte e Tão Perto), o estúdio passou a apostar as fichas em Harry Potter, quando no final de 2011 o filme ainda mantinha o título de mais bem recebido pela crítica no Rotten Tomatoes (96% de aprovação – sendo 100% entre os renomados), no Metacritics (87 pontos, perdendo apenas para O Artista), na BFCA (93 pontos) e adentrara para o top 10 da NBR (National Board of Review) e receber o prêmio especial da AFI (American Film Institut). Mas a divisão do último livro da série em dois filmes soou como um grande caça-níqueis para a Academia, além do fato da série britânica ter dado um banho nas franquias hollywoodianas em bilheterias e ainda apresentar uma qualidade que, no momento, é escassa nos blockbusters norte-americanos. Some isso ao enredo voltado para o público jovem e temos um bom jogo de escanteio. A solução, claro, foi lançar na categoria principal um filme que, espere aí, é protagonizado pelo vice-presidente da Academia, Tom Hanks, e dirigido pelo menino de seus olhos, Stephen Daldry.

Obviamente, Potter não era a única opção. Era apenas a mais coerente de acordo (novamente) com o consenso, mas talvez nem a melhor. Afinal, em 2011 tivemos Precisamos Falar Sobre o Kevin, cuja recepção da crítica e do público foi excelente. Os 87% de aprovação no Rotten Tomatoes, os 70 pontos no Metacritics, a elogiadíssima interpretação de Tilda Swinton (também negligenciada pela Academia) e os 7.8 pontos no IMDB estão aí para provar isso. O que dizer também de Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, cujo enredo pode não ser surpreendente e seus mecanismos serem semelhantes aos do recente A Rede Social, mas ainda assim é melhor do que a escolha atual? Talvez o simples fato de estarmos lidando com um remake de uma produção de 2009 seja o impasse que faça com que a Academia o coloque na mesma caixinha de caça-níqueis de Harry Potter (e dane-se a qualidade). Claro que se mencionarmos que em 2011 ainda tivemos O Espião que Sabia Demais a coisa já se torna fora das possibilidades de explicação. O que leva uma premiação que procura manter sua credibilidade preterir um longa formado por excelentes atuações e uma pontuação invejável em um ano fraco como este (85 no Metacritics, 84% no R.T. – sendo 91% entre os renomados) em nome de uma derrapada medonha como o filme de Daldry? Por que produções que caíram no gosto imediato do público e crítica como Drive não tiveram sua chance (só Edição de Som? Sério mesmo?).

O problema do Oscar, certas vezes e, principalmente neste ano, não é nem quem ficou de fora. É quem está dentro em relação a quem não está. É perfeitamente admissível e esperada uma omissão de Harry Potter. Até o próprio David Fincher já aguardava que seu Millennium não entrasse na disputa. E Drive era uma aposta até arriscada, mas Precisamos Falar Sobre o Kevin e O Espião Que Sabia Demais já soam bem estranhos. É preciso dizer que se O Artista sofre acusações mal sustentadas de ter sido indicado apenas por se tratar de um filme “mudo” e em preto e branco em pleno século XXI, apelando para a veia nostálgica da Academia, deveríamos torcer o nariz de verdade para aquelas produções cujo único intuito é abocanhar um Oscar. As que pensam e agem em nome da estatueta, se criam buscando impressionar os membros da Academia e até jogam suas estreias para a temporada de prêmios. Não estão, aliás, nem aí se o público será agradado ou não. O resultado são produtos artificiais calcados nas fórmulas ao tentarem ser aquilo que não são: bons filmes consensuais.

O que fica provado é que a Academia indica o que ela bem entender, seja bom ou ruim, estejam as plateias conformadas ou não, unicamente para demonstrar sua onipotência sobre a impressão cinematográfica daquele ano. O que ela não entende, entretanto, é que diferente dos tempos passados, a massa que frequenta as salas de exibição já se sente bem menos compelida a receber de bom grado as escolhas do Oscar para formar a sua opinião. O tempo em que a Academia dava a sorte de casar o seu gosto com o amplamente aceito já passou. E a hora de enxergar isso, também.

Há quem diga para não se importar. Não, não há como. É impossível trabalhar falando sobre Cinema, vendo bons filmes e se submetendo a outros não tão bons, e não se envolver. Neste vem e vai, os melhores desta arte viram ídolos e as histórias se tornam envolventes. Não há como não se frustrar quando por um jogo de politicagem (e não por uma escassez de qualidade) não são tais ídolos que ganham o status de estarem em um prêmio como o Oscar. Não há como ver um filme que fere não ao seu gosto, mas o de uma concordância, estar ali sem sentir uma ardência nos olhos. São incoerências que quanto mais se tornam recorrentes, mais cria-se a fantasia de que elas são aceitáveis. Não são. E foi aceitando muita coisa ruim que hoje temos alguns dos títulos que temos figurando no topo do Box Office. Que perdição aguarda o “selo” de melhor filme daqui a alguns anos?

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