OSCAR | Por que o novo prêmio de Melhor Filme Popular não é a solução?

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// 09/08/2018

Ontem, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou algumas novidades para o Oscar 2019, que incluem uma redução de 4h para 3h de duração e uma mudança no calendário, com a cerimônia agora acontecendo no início de fevereiro (o que vai impactar o calendário de todas as outras premiações do Cinema). Mas a mudança mais polêmica foi a inclusão de uma categoria para prestigiar os filmes mais populares. A galera surtou.

Essa tática do Oscar é um desespero para conseguir reaver uma audiência que vem se perdendo há anos. Pra ser ter uma ideia, a última vez que a cerimônia teve um pico te telespectadores tão alto foi em 1998, quando Titanic levou 11 das suas 13 indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor (eram 55,2 milhões de pessoas assistindo). Desde então, a festa nunca chegou nem perto desse número. E isso resume bastante toda a questão.

Existem vários motivos pelos quais o público tem perdido o interesse na cerimônia, mas o maior deles é a falta da presença de produções que ele tem interesse. Não é nenhum mistério que os blockbusters, que detêm legiões de fãs, raramente são indicados às categorias principais. Por melhor que sejam as críticas e a bilheteria, longas de ação, aventura e fantasia de grandes orçamentos e que ganham o amor do público não tocam os corações da Academia, que tem verdadeira paixão por produções independentes que, convenhamos, ninguém assistiu ou ouviu falar. Pelo menos não até entrarem na linha de tiro do Globo de Ouro e Oscar.


Pra ser ter uma ideia, a última vez que a cerimônia teve um pico te telespectadores tão alto foi em 1998, quando Titanic levou 11 das suas 13 indicações.


Mas será que criar uma categoria só pra premiar os filmes “do povão” é uma alternativa justa? O problema, na verdade, são os critérios subjetivos e até objetivos que fazem a Academia dizer quem merece ser nomeado a Melhor Filme. Se uma produção tem altíssima qualidade técnica e artística, meio que não há discussão, certo? Mas em muitos desses casos o artista acaba falhando ao não tocar em temas ou linguagens que não dialogam com a plateia. Essa irrelevância à conversa já existente do público geral também não deveria ser um ponto a se considerar ao decidir que, talvez, aquele filme muito bom não tenha atingido seu objetivo e, por isso, não mereça tanto assim um prêmio de Melhor Filme? Afinal, qual artista produz conteúdo para o seu bel prazer? A conexão com a audiência é sempre necessária. E, cá entre nós, houve um filme em 2018 mais relevante para o diálogo social em escala global do que Pantera Negra? E isso aliado às boas críticas e à boa repercussão com o público não deveria significar que o longa superou seu objetivo ao instigar um movimento cultural/comportamental no mundo todo, merecendo, assim, uma indicação à categoria de Melhor Filme, em vez de uma pseudo-categoria?

A ideia pareceu boa pra Academia: “vamos dar a oportunidade de indicar filmes que nunca apareceriam em Melhor Filme”. É, mas isso significa que agora pode-se ignorar confortavelmente o valor social e artístico de produções que atualmente são desconsideradas só por preconceito quanto ao gênero cinematográfico em que se enquadram. Ora, é melhor permitir que um longa seja indicado à categoria principal e perder do que se contentar em deixá-lo em uma sub-categoria que claramente grita “você só pode chegar até aqui, você nunca será bom o bastante pra nós”. Um péssimo prêmio de consolação e uma atitude bem elitista.

Não há, ainda, um motivo real pra dividir “Melhor” de “Popular”. Titanic, Forrest Gump, Star Wars, A Origem, O Senhor dos Anéis, Avatar, todos foram filmes populares que foram indicados a Melhor Filme. Alguns deles vencendo. Como ficaria isso a partir de agora? Será que eles teriam o fôlego de chegar até o maior prêmio da noite? Será que eles vão ser analisados da mesma forma que acontece com a categoria de Melhor Animação, como quando Toy Story 3 e Up: Altas Aventuras foram indicadas tanto na sua categoria quanto em Melhor Filme? Eu duvido muito.


Dar a “oportunidade” de premiar filmes que nunca seriam indicados a Melhor Filme é carta branca pra se ignorar de vez o valor de produções que só são desconsideradas por puro preconceito.


A verdade mesmo é que o Oscar não envelheceu bem. O público que assiste à cerimônia desaparece aos poucos porque ele não vê o seu gosto representado nas escolhas dos dinossauros manda-chuvas da Academia, que muito pouco evoluíram. E, de fato, é um gosto bem moldado para classes altas de consumo de cultura. E só para ele. Em vez de trazer bons filmes blockbusters para perto, acaba afastando-os definitivamente.

Talvez o único ponto positivo dessa grande bobagem seja deixar claro como água que os indicados a Melhor Filme são mesmo impopulares e desinteressantes às massas. E até o Oscar sabe. Oficialmente.

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