CRÍTICA: Speed Racer

Ação
// 10/05/2008

Speed Racer
Por Arthur Melo

Criar um mundo totalmente novo partindo do zero é um trabalho cansativo. Mas recriar algo já consolidado, em outros parâmetros, não pode ser definido em uma ou duas palavras em qualquer vocabulário quanto a sua complexidade. Não podia. Speed Racer é um bom sinônimo para a façanha. Misturando conceitos do cinema moderno com anime e adaptado sobre o foco de luzes e cores extravagantes, Andy e Larry Wachowski (os criadores da trilogia Matrix) acertaram a mão.
O trabalho arrojado e meticuloso do longa é uma fantasia à parte, que faz da trama – ainda que bem coerente – o menor atrativo. A engenhosidade da composição visual fascina, mesmo que seja falha em alguns momentos. A idéia de desenvolver a trajetória do filme como um grande episódio com todas as características do desenho animado que o originou é posta em prática sem erros graves. Desde a edição até o fundo falso digital proposital, passando pelo desenho de produção futurista meio anos cinqüenta e os figurinos na mesma linha, os atores parecem, a todo momento, fazerem parte de uma animação high-tec.

Num primeiro momento pode soar estranha esta utilização “live action em anime”. Afinal, estamos num momento do cinema onde os efeitos visuais servem para trazer a fantasia para o mundo real com uma riqueza de detalhes extrema, nunca para distanciá-la. Entretanto, se os critérios da arte forem postos acima do comércio (ainda que este seja o ponto central do filme tanto nas telas como na sua função no mundo real) isto pode ser visto por outro ângulo. Mas essa estranheza sentida pelo espectador pode mudar não por uma modificação ao longo do filme, mas sim pelo que ele ainda tem a acrescentar; mesmo não deixando de ser uma tentativa nova e inexplorada às vezes vacilante. Gorducho, o irmão de Speed Racer, interpretado por Paulie Litt (que rouba a cena de Susan Sarandon ao dialogar com a mesma pela primeira vez no filme), protagoniza as poucas cenas dispensáveis, indicando o que é funcional ou não na linguagem cinematográfica. Nada que não possa ser repensado em futuras idéias do gênero.

A pirotecnia, mais um produto da criatividade exagerada dos realizadores do que da ciência computadorizada, realiza seqüências de ação frenéticas protagonizadas por carros cheios de brilho, reflexos e engenhocas mecânicas que marcam a força e agilidade que corredores e suas máquinas devem ter num mundo onde as disputas são vitais. Fúria acompanhada por uma trilha sonora que não se contenta em apenas colaborar com as perseguições e desafios – trata-se de uma contagem respeitável. Claro que certa coerência com o nosso universo, a chamada verossimilhança, deve ser mantida; é o que dá credibilidade ao inacreditável das produções do estilo – um paradoxo essencial. Entretanto, ela pode e deve ser esquecida, assim como as leis da física, quando o objetivo é iludir e entreter com leveza e graça. Graça esta que não impede a inserção da agressividade que uma corrida a quatro rodas possui. O carro fu (uma versão do kung fu para automóveis), é verdadeiro e original e alcança o apogeu nos momentos da história em que os personagens trabalham em equipe e sincronia (um dos principais argumentos do anime de Speed) dominando as cenas e intensificando pequenos detalhes. É evidente que os exibicionismos do poderio hollywoodiano para criar cenas de ação são um elemento importante, mas a soma destes com a destreza e inteligência dos irmãos Wachowsi se transforma num show a parte.

O brilho de Speed Racer não se resume às inovações que o longa traz ao fazer aquilo que muitos recearam em fazer – seja por falta de coragem ou de competência; esta última a mais provável. Andy e Larry se preocuparam com o enredo, com a evolução deste e de como os personagens o acompanhariam. É evidente que uns recebem mais atenção do que outros, mas há uma dúvida saudável se este foco é cortesia dos diretores ou produto da qualidade do elenco. A família de Speed é única. Emoção, carinho e amor são valores familiares que não estão expressos em frases feitas. Residem no olhar, na relação e na interação que apenas a total entrega à profissão teatral pode alcançar. Uma beleza que deixa de ser sutil e passa a ser admirável; técnica artística que dispensa a maquiagem dos efeitos digitais, colocando-os em seu lugar.

Por mais evidente que seja que Speed Racer é um filme baseado na computação gráfica, não há como encará-los como peças-chave, ora que tantos outros argumentos valiosos são expostos no filme. Exemplo disto é a proteção distante e heróica que o Corredor X mantém sobre Speed e a dupla-troca entre ambos. Ou o fato de nada superar a ópera tão bem maestrada que são os segundos finais da última corrida, na melhor edição de efeitos especiais, emoção, intensidade e glória expressos nos rostos dos menores figurantes às figuras centrais que um filme até hoje já apresentou. Uma experiência única que dentre outras ilustradas retribuem o dinheiro pago no ingresso.

Há uma generosidade gratificante satisfatória que reflete qualquer anseio por prováveis continuações. Se houver, a produção terá muito trabalho para se distanciar e tomar a dianteira quando comparado inevitavelmente com o primeiro filme. Se os irmãos Wachowski não se perderem nos belos efeitos visuais que detém, é bem possível que estejamos diante de uma futura grande trilogia; após submetida a uma breve regulagem.

Nota: Green Energy, o carro da Petrobrás, só se identifica na tela por 4 segundos (contados) antes da largada da corrida final. Aliás, o logotipo da Motorola aparece bem mais num reles walk-talk do que o que podemos enxergar na mistura de cores da pista pela qual o carro brasileiro percorre. Procure compensar nos créditos finais. É tocada a nova versão da música tema de Speed Racer. Dentre as várias línguas presentes na canção, se encontra um português sem concordância verbal. Mais fácil entender pelo trecho em inglês.

——————————

Speed Racer (EUA, 2008). Aventura. Warner Bros. Pictures.
Direção: Andy e Larry Wachowsky
Elenco: Emile Hirsch, Christina Ricci, John Goodman Matthew Fox, Susan Sarandon.

Comentários via Facebook
Categorias
Ação, Aventura, Críticas