Talento não é sinônimo de caráter

Editorial
// 04/11/2017

Vamos pular qualquer introdução.

Nessa semana, a Netflix cancelou seu contrato com Kevin Spacey, suspendeu as gravações da aclamada série House of Cards e ainda anunciou que o ator nunca mais fará parte de qualquer produção da casa. Spacey (que foi indicado 5 vezes ao Emmy pela série, venceu o Globo de Ouro pela mesma e já recebera dois Oscars na carreira) foi acusado de assediar vários homens durante a produção do seriado. Até agora, oito jovens se pronunciaram e esse levante aconteceu após o ator Anthony Rapp, de Star Trek, ter feito a primeira acusação, cujos fatos aconteceram quando Rapp era mais novo. O caso foi negado por Kevin Spacey, que na mesma declaração se assumiu gay.

Esse não é o primeiro e nem será o último escândalo sexual ou de agressão descoberto em Hollywood. E não é o único a acontecer recentemente. Há algumas semanas, Harvey Weinstein, um dos nomes mais poderosos da indústria cinematográfica e grande influente na lista final de indicados ao Oscar, recebeu inúmeras acusações de atrizes famosas com quem trabalhou.

Esse tipo de assunto não correu pela mídia (e nem aqui no site) só agora. Já tem algum tempo que notícias do tipo surgem pela web e a reação de uma considerável (e preocupante) parte do público é a mesma: “ninguém prova nada”, “essas mulheres só querem ganhar dinheiro”, “e por que demorou anos pra falar? Quer aproveitar que ele agora tá mais famoso” ou “a vida pessoal dele não tem nada a ver com o talento”. Bem, aqui vai a má notícia: tem, sim. E aqui vão uma série de excelentes argumentos para você entender e desconstruir todas essas três frases bastante perigosas postas acima. Vou até facilitar e colocar em tópicos.

– E por que demorou anos pra falar? 

Certa vez, na escola, havia um garotinho que arrumava encrenca com todos os meus colegas. Comigo inclusive. Batia, pegava coisas, gritava, xingava. Por ser maior e mais forte, ninguém fazia nada pelo legítimo medo de represália. Um dia ele foi flagrado pela coordenadora, que em um ato de orientação conversou com a turma e expôs estar ciente do ocorrido. Pronto. Foi o suficiente para uma a uma as crianças contarem suas experiências negativas (narrando agora me lembrei até da icônica cena de Meninas Malvadas).

Você provavelmente já passou por algo similar, seja na escola ou em outro ambiente. Ou, pelo menos, testemunhou. Pegue esse exemplo e utilize pra se colocar no lugar dessas vítimas de assédio: jovens buscando uma carreira, que se viram agredidas (fisicamente ou psicologicamente) por alguém que detém o seu futuro nas mãos e que tem poder suficiente pra desmoralizar ou, pior, cometer uma agressão maior. Preciso enfatizar mais um pouquinho a sensação de pânico pela qual essas pessoas passaram? Fora o sentimento (errado) de culpa que muitas delas sentem (sim!). Pois esse exercício que você acabou de fazer é o de empatia. Não doeu, né?

– Ninguém prova nada!

É um pouco complicado provar um caso de assédio e estupro ocorrido muitos anos atrás. Não há exame de corpo de delito que ajude. Mas sempre existem testemunhas que não ganhariam nada em “derrubar” a carreira do acusado. Assim como é bastante complicado presumir que nove pessoas estejam mentindo quando alegam em juízo a mesma coisa.

– Essas mulheres só querem ganhar dinheiro.

Harvey Weinstein é empresário, produtor e coproprietário de alguns estúdios que você deve ter ouvido falar, como Miramax (Pulp Fiction, Gênio Indomado, Shakespeare Apaixonado, Onde os Fracos Não Têm Vez) e The Weinstein Company (Django Livre, O Discurso do Rei, Lion, O Lado Bom da Vida). Lembra que eu falei da influência dele sobre o Oscar? Esses filmes exemplificam bem. Todos (alguns sem merecer) conseguiram emplacar alguma estatueta graças a ele. De fato, ele tem bastante poder. Agora, o que atrizes como Alice Evans, Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne, Asia Argento e Lea Seydoux, que já têm suas carreiras sólidas, bons milhões entrando todo ano e alguns bons prêmios, ganhariam finalmente expondo o caso? Além da paz de espírito e a sensação de colaborar com a sociedade ajudando um patife a ter sua mega reputação posta por terra, nada. E vale dizer que elas também levaram bastante tempo porque hoje já não são as jovens inexperientes e abaláveis pelo poder de Harvey, ao contrário de há quinze ou vinte anos, quando trabalharam para ele.

– A vida pessoal dele não tem nada a ver com o trabalho.

É duro saber que o seu ídolo, como (vou bater nessa tecla de novo) Johnny Depp, agrediu a esposa. Eu entendo. Mas é duro pra mim ver que vocês tiveram acesso ao vídeo dele agredindo psicologicamente a esposa em casa e ainda assim insistirem em diminuir a questão. Deslegitimar não ajuda, só piora e alimenta esse status.

Kevin, mesmo com o talento já comprovado dezenas de vezes (seja pelo aplauso do público ou pelos incontáveis prêmios e indicações importantes) foi cortado da lista da Netflix. Harvey (que inclusive pode ter passado DSTs para suas vítimas de estupro) foi demitido da sua própria empresa, a Weinstein Co., foi expulso da Academia do Oscar e do Sindicado de Produtores de Hollywood.

O que essas empresas e instituições querem dizer com isso é que não importa se você é o homem mais poderoso do mundo, se há milhões e milhares sob seu guarda-chuva. Assédio, estupro e agressão não passarão impunes. E, principalmente, já se foi a época em que a sociedade, 100% embebida em machismo, dava mais voz aos poderosos do que às vítimas unicamente por serem mulheres, gays ou jovens em início de carreira. O tempo em que se cometia crimes contra a integridade e se escondia sob seu monumento social não é o de agora. Essa atitude é um exemplo, um indicativo, um aviso. É, sobretudo, uma espetacular forma de desencorajar esses crimes.

Vai ser babaca e escroto? Vamos tirar tudo o que é seu.

Respeita as mina!


Se você sofreu ou presenciou algum tipo de agressão contra a mulher, mesmo que pela internet, você pode denunciar de maneira sigilosa e segura através do telefone 180. O serviço está disponível em todo o Brasil.

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