Um mundo que não admite um Capitão América gay

Editorial
// 13/06/2016
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Há algumas semanas, noticiamos no nosso Facebook uma movimentação de usuários no Twitter que pediam à Marvel Studios que o Capitão América ganhasse um namorado. Em minutos, os comentários viraram um verdadeiro campo de batalha, no qual apenas um exército atacava (o outro, se protegia). Precisamos falar sobre a intolerância. Precisamos falar sobre a falta de empatia. Precisamos falar, sim, sobre a capacidade de parar, refletir, se colocar no lugar do outro e perceber que a primeira coisa que vem à cabeça não é natural coisa nenhuma, mas sim uma mera repetição robótica de conceitos artificiais criados por quem precisou um dia estabelecer algum controle social.

Quando o público LGBT, esmagadora parcela da plateia no cinema e enorme fatia do universo nerd (aceitem), pediu que um dos maiores ícones da cultura pop atual ganhasse um namorado, não foi pra “meter gay em tudo o que é lugar agora”, não foi pra “transformar em gay quem não é gay” e nem por mimimi. Não foi, aliás, por motivos simples que seriam resolvidos “criando um personagem que fosse gay, e não transformando um que não era”. A resposta está na representatividade.

Ao longo de muitos anos, a figura do homem branco, forte e heterossexual tem sido a única usada pela nossa cultura como significado dos conceitos de herói e de capaz de realizar grandes feitos. Mas se fizermos uma matemática simples, constataremos que gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais, negros, índios, orientais, gordos ou qualquer outra condição incluída no grupo das minorias são, juntos, a grande maioria. Existe uma clara falta de representatividade deles em posições de destaque no mundo real e a ficção não só está refletindo o que vemos nas nossas vidas, como ainda está ajudando a manter essa deficiência com o seu discurso atual. Não. Não precisamos criar um personagem novo, precisamos mostrar que esse exemplo magnificado que vocês têm poderia ter sido por toda a sua existência gay, você que não sabia.

Ao construirmos do zero um novo super-herói declaradamente gay, estamos abrindo a possibilidade para que uma parte do público já se feche para a identificação com várias das características desse personagem, unicamente pelo fato dele ser gay. Contudo, quando resgatamos um alguém já conhecido e aclamado por todos as suas façanhas e personalidade e revelamos uma condição sexual diferente da que fora presumida pelo padrão socialmente estipulado, mostramos para esse mesmo grupo que não há qualquer diferença entre um gay e um heterossexual. Que tanto um quanto o outro são igualmente capazes de projetar e realizar as mesmas ações, de almejar, temer e dizer as mesmas coisas e que a escolha sobre com quem se relaciona sexualmente nada tem a dizer acerca de suas demais qualidades. Nada.

 


 

A figura do homem branco, forte e heterossexual tem sido a única usada como significado de herói. Mas se fizermos uma matemática simples, veremos que qualquer condição incluída no grupo das minorias configura a grande maioria.

 


 

Não é preciso ser gay para concordar com isso, apenas decente. A empatia, tão mencionada ultimamente, é a capacidade que nós temos de nos vermos no lugar do outro, de nos transportarmos para aquela ou para uma outra situação parecida, a ponto de entendermos do porquê de aquela questão ser, de fato, um problema real, e não um mimimi. Você pode não ter sofrido com homofobia, mas com racismo, machismo, misoginia, gordofobia. Heterofobia, não, racismo inverso também não, porque você não teve de provar todos os dias para si e para os demais que você é normal. O gay teve, o gordo também. Mas talvez você tenha travado a incessante batalha de explicar que ser orelhudo, cabeçudo, usar óculos, aparelho, ser ruivo ou careca são perfeitamente normais (e penou até a vitória). Imagine conviver com essa implicância para todo o sempre. Agora, imagine temer pela sua vida porque a sua normalidade é alvo de um ódio inexplicável que são consentidos pela Igreja, pela sociedade e ecoados na cultura do entretenimento, fazendo com que todos os dias novas pessoas acreditem que o normal é desmerecer particularidades que os seres humanos não escolheram ter.

Obviamente, O Capitão América se digladiar com inimigos em tela e depois se aquecer em um beijo com o Soldado Invernal não resolverá o problema. Assim como a Elsa descongelar um reino inteiro e se envolver com outra mulher não fará com que a homofobia desapareça do planeta. É claro que não. Mas personagens tão próximos emocionalmente do público irão ajudá-los a enxergar o que eles ainda não conseguem: que o que vivemos hoje é, sim, um problema. Que lutar contra o ódio não é mimimi, que extinguir a repulsa não é falta do que fazer, que dizer “não tenho preconceito, mas prefiro que fiquem longe de mim” é ter preconceito, sim.

Infelizmente, hoje, o que todos enxergamos é outra coisa; um panorama grotesco e cruel em que a religião aliada à ignorância é uma engrenagem mais forte do que o humanismo. Enxergamos que exibição de força, para muitos, é ostentar preconceito por orgulho vazio e receio de se ver refletido nessas minorias, quando o medo deveria estar em se ver representado em um assassino frio e cruel que levou 50 vidas.

Você que tem medo da sua masculinidade ser questionada, que tem medo de ser visto como “menos homem”, você é fraco. Inferior. Incompetente. Pobre de espírito. Covarde. Viciado em uma cultura que precisa reforçar constantemente quem você é. Tendo sua identidade apoiada na violência contra mais da metade da sua espécie. – V. Martz.

De que lado dessa “batalha” você acha, realmente, que o Capitão América estaria?

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