X-Men | Por que a Mística?

Ação
// 05/06/2016
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Se você é fã das franquias de filmes de super-heróis, é provável que já tenha se deparado, na sua própria timeline ou em posts de sites sobre cinema, com a polêmica envolvendo o outdoor de divulgação do filme X-Men: Apocalipse. Em resumo, o pôster mostra a personagem Mística (Jennifer Lawrence) sendo estrangulada pelo vilão Apocalipse (Oscar Isaac). Muitas pessoas, especialmente mulheres, sentiram-se ofendidas pela escolha da imagem, que ainda é encimada pela frase “Only the strong will survive” (“Apenas os fortes sobreviverão”, em português). Outras não veem problema, para eles trata-se somente de uma cena de batalha entre o vilão e a protagonista do filme, natural para o contexto da história.

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Contexto. É exatamente aí que mora o problema na foto. Para o público acostumado ao gênero, a foto pode ser perfeitamente cabível, pois sabe-se que Mística é uma mulher forte e importante na franquia de filmes da Marvel, e o embate entre os personagens é inevitável, cria o clímax da história. Entretanto, é necessário lembrar que nem todo mundo que passará por esse outdoor ou vai se deparar com a imagem na internet segue os filmes ou se interessa pela história. Quando estamos completamente imersos em uma bolha cultural na qual todos conhecem o que conhecemos, gostam do que gostamos e falam daquilo que estamos falando, é natural que nos assustemos ao descobrir que ainda há milhares de pessoas do lado de fora dessa bolha que não compartilham das nossas preferências. Ainda mais profundamente: há indivíduos que vivem realidades diferentes, tiveram experiências únicas e enxergam o mundo com outros olhos.

O erro do pessoal responsável pelo marketing de X-Men: Apocalipse é semiótico: uma só imagem pode conter uma mensagem muito mais poderosa do que dezenas de laudas de explicação. A foto não deixa de conter uma mulher sendo subjugada por um homem, mesmo que eles sejam personagens fictícios envolvidos em uma guerra. Continua sendo conteúdo violento, uma violência sofrida por uma mulher (heroína, azul, forte, protagonista, mas ainda mulher). A frase apenas piora a situação que já é ruim. Afinal, quem é o forte que sobreviverá? Mística? Não é isso que a imagem diz. Sem assistir ao filme, a mensagem é que o homem, mais uma vez, é o mais forte. Falta a quem posicionou o outdoor em via pública a consciência de que, a partir do momento em que a imagem foi exposta, não se está falando somente com o público alvo, mas com qualquer indivíduo que porventura esteja de passagem pelo local e tem o direito de interpretar a foto como as experiências de mundo o permitirem. Não é possível controlar a subjetividade intrínseca a cada ser humano, mas não é difícil visualizar a imagem e presumir que, para muitas pessoas, ela pode ser ofensiva.

 


 

Quando estamos imersos numa bolha cultural na qual todos conhecem o que conhecemos, gostam do que gostamos, é natural que nos assustemos ao descobrir que há milhares de pessoas do lado de fora que não compartilham das nossas preferências.

 


 

Estão no seu direito de se sentirem ofendidas as mulheres que se posicionaram contra o outdoor, pois elas já precisam lidar cotidianamente com a violência praticada contra si em todas as esferas sociais. “Ela é protagonista, vão colocar quem?”, dirão alguns. O problema não está em quem o outdoor retrata, mas de que forma: estrangulada, violentada, inferiorizada. Normalmente, em pôsteres com super-heróis, o que vê são os dois lados de uma batalha em posição de igualdade, indicando o embate. Por que justamente nesse, com uma mulher, ela precisa estar em posição de desvantagem? “Se fosse homem estrangulando homem, ou uma mulher estrangulando um homem, ninguém veria problema”, dirão outros. Não, não haveria problema, pois homens não estão e nunca estiveram em posição inferior. Homens não sofrem preconceitos e humilhações por serem homens, não precisam lidar com pré-julgamentos injustos por serem homens. Homens estrelam franquias de aventura e ação desde os primórdios do cinema, nunca precisaram lutar por um reconhecimento que ainda deixa muito a desejar quando se trata de protagonismo feminino. Para exemplificar com um fato recente, muitos fãs de Star Wars criticaram a presença de uma protagonista mulher no último filme. Mulheres como o centro de poder de uma série de aventura ainda incomodam muito.

 


 

A partir do momento em que a imagem foi exposta em via pública, não se está falando somente com o público alvo, mas com qualquer um que esteja de passagem pelo local e interprete a foto como as experiências de mundo o permitirem.

 


 

Citar exemplos isolados de franquias com mulheres como personagem principal é um desserviço à luta feminista considerando que podemos listar centenas de filmes nos quais os protagonistas são homens. Um homem nunca entenderá o que significa para uma mulher perceber que escolheram para divulgação de um filme uma foto em que, mais uma vez, é ela quem está sofrendo uma violência. Acima de X-Men, dos super-heróis e até mesmo da Mística da Jennifer Lawrence existe um histórico de diminuição do papel da mulher na sociedade, existe a violência que persiste, uma sociedade que julga e não se importa com os dramas de milhares de mulheres. O que elas pedem é que, quando a protagonista for uma mulher, ela não precise estampar outdoors sendo inferiorizada. Os homens não são, então por que elas? Por que justamente com elas?

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