CRÍTICA: Alice no País das Maravilhas

Animações
// 22/04/2010

Chegou. O lançamento mais esperado do primeiro semestre de 2010 desembarca nas salas brasileiras amanhã. Com tanta ansiedade envolvendo o filme, há duas possibilidades: um – a decepção de ver que o filme não era aquilo que você esperava. Dois: deixar o assento do cinema com a “alma lavada” de felicidade.

Bem, Tim Burton definitivamente conseguiu proporcionar estas duas emoções em seu público. Resta saber em qual deles você está. Um atalho para você já saber o que te espera e se posicionar no time mais adequado se encontra na crítica completa de Alice no País das Maravilhas, clicando em “Ver Completo”.

Alice no País das Maravilhas
por Arthur Melo

É inegável. Nenhum filme de Tim Burton até então fora tão aguardado e comentado quanto Alice no País das Maravilhas. E a bilheteria comprova isso (mais de 800 milhões de dólares mundiais – e o filme nem estreou no Brasil). Ansiado, a maior superprodução do diretor é o título que faltava para fincá-lo na indústria como um grande ímã comercial. E, aplausos únicos para o próprio, é o resultado de um grande zelo pelo próprio trabalho, algo que Burton vem demonstrando ao longo de sua carreira.

Seria totalmente repetitivo tecer comentários sobre a filmografia de Burton, por dois motivos: o primeiro, e mais lógico, é a fama de condensador de estilos do diretor, o grande atrativo de suas produções que vem se reproduzindo e marcando presença nas suas obras. O segundo, menos perceptível para alguns, é o excesso de dissertações sobre os projetos já lançados de Tim, localizados nas introduções de seja lá qual for o texto sobre o novo lançamento da Walt Disney Pictures. No final, fala-se tanto do aspecto sombrio e divertido outrora exposto pelo artista em questão, que a pobre Alice, que muito pouco tem a ver com esse estilo, é esquecida ao canto.

Pais das Maravilhas, a versão atual, é uma produção atípica da Disney. Sim, o já mencionado sobre Tim Burton tem sua interferência nisto, mas não é o ponto chave. Pela primeira vez, o estúdio se permitiu ter o direito de entregar ao público um tipo de produção que ele se demonstra favorável a assistir – debutou, sim, mas nos termos em que Alice foi produzido. É evidente que o estúdio sabe agraciar a plateia. Não fosse por isso, as animações e mega espetáculos de pirotecnia, como Piratas do Caribe, não surtiriam efeito positivo em seus cofres; por mais distantes que essas produções estejam umas das outras, em termos de postura. Contudo, é com Alice no País das Maravilhas que há uma divisa de águas no padrão Disney de contar histórias. Nunca antes a casa do Mickey se deu ao trabalho de resgatar uma de suas clássicas fantasias infantis para transformá-la numa estrutura narrativa tal qual este longa é. O que significa que, ainda que isto se trate de uma adaptação de uma obra literária de conhecimento geral ao redor do globo, é à Disney que a imagem cinematográfica da menina de cabelos aloirados que resolve seguir o coelho branco é associada. E mexer com este tipo de ligação poderia vir a ser um problema.

O que chama mais atenção em Alice não é bem o filme em si, e sim algo que já tinha sido notado desde o anúncio do projeto: o estúdio quer, e precisa, atender a um público que cada vez menos se convence com um conto de fadas ou histórias voltadas apenas às crianças (e isto pode ser visto com extrema facilidade nos últimos trabalhos da Pixar). A escolha de direção e elenco já dava pistas da real intenção para com a produção, o que veio a ser certificado. Alice no País das Maravilhas não é um novo clássico do cinema, muito longe. Esta nem era, aliás, a ideia inicial (contrariando os dizeres do marketing). O filme é uma nova proposta; rica, interessantíssima, certeira, testada e perfeitamente aprovada. Agora, só resta acertar no filme.

A história começa quando a jovem Alice, agora com 17 anos, se vê diante da sua própria festa de noivado surpresa, exposta a um casamento indesejado e precoce. Desesperada com o que dizer no momento do “sim”, a adolescente avista um Coelho Branco que para ela só existia em seus repetitivos sonhos sobre um mundo maravilhoso. Decidida a segui-lo, Alice cai na toca do roedor, adentrando em “Underland” (ou “Mundo Subterrâneo”, numa proximidade sonora com o “Wonderland” que a jovem escutou errado quando menina, em sua primeira passagem). Agora Alice descobre que precisa terminar um trabalho que começou anos atrás, e retirar a coroa da Rainha Vermelha (uma mistura da Rainha de Copas com a própria Rainha Vermelha, de livros diferentes – adaptações à parte) e devolvê-la à Rainha Branca para repor a ordem e paz no lugar.

A trama tem sua coerência. Apesar de 0 título não corresponder à obra que deveria (Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Por Lá, uma espécie de continuação de n’O País das Maravilhas, ambos do mesmo autor – leia mais no nosso especial clicando aqui) e das inúmeras transformações a partir de tal livro que o originou, (que vão desde o seguimento da história até a caracterização visual e constituinte dos personagens), o roteiro percorre o filme sem furos perceptíveis aos desatentos. Os problemas estão no desenvolvimento de um estilo esperado, que reluta para se definir.

O tão comentado e vangloriado “ar Burton” de filmar não passa exatamente disto: uma postura para literalmente filmar. Trocando em miúdos, não evolui além do visual. A iluminação enfraquece, as cores fogem dos personagens amistosos e se mostram vivas e envolventes no palácio da Rainha Vermelha, em exageros que caem bem ao contexto de uma personagem que os valoriza, ao passo que enfatiza uma concentração de poder neste núcleo da trama. A cenografia e a direção de arte são ricas e disformes em certos desenhos, criando formações estranhas e, por ventura, bizarras, elaborando um universo ímpar que define uma atmosfera fantástica e assustadora. Um verdadeiro cuidado que ilustra minúcia e criatividade visual. Sem mais.

Não fosse por este espetáculo encorpado pelo ótimo 3D (feito em pós-produção, mas com uma qualidade extremamente elogiável por sua funcionalidade), não se encontraria ali a linguagem de Tim Burton. Os rumos das aventuras de Alice estão muito abaixo das surpresas que chocavam pelas tomadas repentinas em filmes anteriores do diretor, uma falha que aponta para um roteiro que mais se preocupou em recriar personagens o mais distantes possível dos livros (sem destoar, claramente) do que em inserir uma sucessão de fatos amarrados que vez ou outra testam o comportamento ameno. E nem mesmo os diálogos estão preparados para suprir esta problemática.

Tecnicamente, o filme também vacila quando menos deveria. Sustentados por um excelente desenho de produção, os efeitos visuais ficaram degraus muito abaixo de um patamar de convencimento. Todo e qualquer animal falante é tão artificial e plástico que, sob a lente do 3D, perde o carisma que deveria ter, dando mais sorte na fluência com que fala ou anda do que quando protagoniza movimentos bruscos e, ainda pior, na própria qualidade gráfica, iluminando os olhos para os que apontam para um legítimo produto de processadores de máquinas não tão potentes. Ao menos a interação entre os atores reais e os cenários virtuais funciona.

Mas há bastante para se apreciar, e isto não fica nas costas de Johnny Depp, por mais que isso possa causar contenda. Acostumado com personagens cada vez mais caricatos, não há mais espaço para que o ator inove ou se funda àquilo que está interpretando, o que para alguns pode significar redundância. Em contrapartida, Helena Bonham Carter é o verdadeiro significado de uma entrega ao personagem. A sua Rainha Vermelha é impecável tamanho seu ar maligno e adorável, prazerosos em comunhão na tela, fazendo do longa o palco para o seu próprio espetáculo. Anne Hathaway, ou A Rainha Branca, é segura em seus trejeitos previamente caricaturados, num elo cômico e gracioso que fazem de sua interpretação única, mesmo com pouco tempo de ação. Sem mencionar o ótimo Matt Lucas, que atingiu o ponto certeiro com os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, administrando mesmo sob inúmeras camadas de computação a prática e a facilidade em se expressar corretamente com a temática do momento.

Alice no País das Maravilhas nada mais é do que uma propaganda, um mostruário e, também, um conformismo por parte de uma produtora que sempre se voltou para uma apresentação “formal e correta” de suas histórias. Diante de uma iniciativa como esta, que já mostrou ser competente e muito benvinda, os erros e descuidos de uma produção não vão passar de meros tropeços (ou inseguranças) de um momento que está começando agora – tardio, mas começando. Esperemos que Alice seja só um convite para agora nos deliciarmos com uma ótima vertente dentro de um estúdio que já provou ditar padrões dentro de um gênero no cinema. E um gênero inteiro é, sim, muita coisa. Que a fantasia, mesmo que meio torta, continue assim. Que venha Malévola.

Especial Alice

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Alice in Wonderland (EUA, 2010). Aventura. Fantasia. Walt Disney Pictures.
Direção: Tim Burton
Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter.

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