CRÍTICA | Amor Sem Escalas

Críticas
// 21/01/2010
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Apesar de ser o sonho de muitos percorrer o mundo, conhecer incontáveis cidades e ainda ser pago para tudo isso, poucos desfrutam deste privilégio e menos ainda param para refletir nas consequências de uma vida sem raízes sólidas. Esta é uma das proposta do diretor Jason Reitman (Obrigado por fumar e Juno) em Amor Sem Escalas (Up in the Air), filme adaptado de forma bem sucedida do romance de Walter Kirn e que esconde muito mais que o dilema de ser totalmente livre ou deixar-se prender por algo ou alguém.

Usando como pano de fundo a atual situação de crise econômica que assola os EUA, Reitman retrata a vida de um executivo sem endereço fixo na maior parte do tempo. Ryan Bingham, interpretado por um George Clooney sem ressalvas, trabalha para uma empresa cujo serviço consiste em viajar pelo país demitindo funcionários em nome de outras companhias sem coragem para fazê-lo. Ao mesmo tempo, dá palestras motivacionais fazendo apologia ao desapego de tudo que, segundo ele, prende o ser humano e impede que ele evolua. Entre as coisas que Bingham julga descartáveis estão, além das nossas bugigangas cotidianas, memórias, lembranças, relacionamentos e pessoas. O trabalho obriga Ryan a praticamente morar em hotéis e estar cada dia em um lugar diferente e, apesar desta ideia parecer cansativa, Ryan ama a vida que leva. O que o motiva, além da aparente liberdade, são as milhas conquistadas em cada viagem: seu objetivo é chegar a 10 milhões delas e conquistar um posto que apenas 6 pessoas até então alcançaram.

Em uma dessas paradas, o solitário convicto conhece Alex (Vera Farmiga), uma mulher de negócios que parece a reprodução feminina perfeita de Ryan e com quem ele começa uma relação casual, que consiste em encontros periódicos por onde os dois passam. Então, quando já estamos convencidos de que o sonho de Ryan se encaixa perfeitamente com seu trabalho, a jovem aspirante a executiva Natalie Keener (Anna Kendrick) surge para ameaçar sua confortável realidade. A recém-contratada chega propondo uma nova e econômica maneira de continuar oferecendo os serviços da empresa. A ideia é, em vez de viagens de alto custo, demissões por videoconferência. Uma vez provado que Natalie ainda não está totalmente preparada, Ryan ganha a missão de levá-la a alguns lugares e ensinar-lhe seu ofício.

A jornada de Ryan e Natalie será significativa para ambos. Se por um lado a jovem está determinada a crescer profissionalmente, no fundo a garota esconde uma personalidade romântica, acredita no amor e tem planos de formar uma família. Ao mesmo tempo, Bingham precisa restabelecer o contato com as irmãs Kara e Julie, sendo que a segunda está de casamento marcado para breve e Ryan sequer conhece seu noivo. Alex surge como uma possibilidade do executivo rever seus conceitos sobre a vida e suas convicções.

Não se engane com o título do longa em português esperando um romance. O filme é reflexivo, retrata uma realidade cada vez mais praticada nestes tempos de exigências e aspirações profissionais sempre mais divergentes de uma vida tranquila ao lado da família e das próprias raízes. Ryan Bingham é a personificação da vida atribulada, a corrida contra o relógio, a vontade de se estar em vários lugares e fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Ironicamente, seu único objeto de apego são justamente os aeroportos, lugar de passagem, não de estabelecimento concreto. Como a própria Natalie diz ao colega de trabalho, ele escolheu para si uma vida que inviabiliza qualquer tipo de conexão humana e, até certo ponto, sente-se realizado com isso. Mesmo que inconscientemente, esta também é a escolha de muitos, principalmente em tempos de demissões em massa como acontece diante do atual cenário econômico. Reitman não chega a condenar os ideais contemporâneos, mas permite que o espectador julgue se suas prioridades estão satisfatoriamente organizadas. O filme não chega a ser brilhante, mas convence no que propõe e, como é de costume do diretor, sempre traz algo novo, permitindo discussões que fazem parte do novo estilo de vida que buscamos e do que estamos abrindo mão para tê-la.


Up in The Air (EUA, 2009). Romance. Paramount Pictures.
Direção: Jason Reitman
Elenco: George Cloney, Vera Farmiga e Anna Kendrick.

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Categorias
Críticas, Romance