CRÍTICA | Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Aventura
// 12/11/2018

Quando a Warner Bros. anunciou a continuidade da franquia Harry Potter nos cinemas sob a forma da série de cinco filmes Animais Fantásticos, uma pergunta surgiu em meio à histeria de fãs mais exaltados: “precisa disso?”. Financeiramente, para o estúdio, era óbvio que sim. Mas, do ponto de vista cultural, ainda havia algo que a série poderia nos acrescentar? Onde Habitam (2016), o começo dessa nova empreitada, ganhou um “sim” da crítica e dividiu parte do público. Já Os Crimes de Grindelwald, o segundo filme dessa nova leva, não necessariamente manterá essa configuração. Com vários fan-services (o maior deles, em particular, beirando a “fanfic”), trama confusa e certos excessos em boa parte do roteiro, o longa conversa diretamente com o público pottermaníaco e, eventualmente, esquece que precisa fisgar o espectador de ocasião – que, sim, acompanhou Harry Potter.

O filme já começa mostrando que teremos airtime suficiente de uma das maiores polêmicas de sua produção: Johnny Depp. O ator, cujo caso de agressão à ex-esposa teve um desfecho suspeito (apesar de legalmente “concluído”), se tornou o grande divisor de águas dentre os fãs da autora e roteirista do longa, J.K. Rowling. Vítima de agressão doméstica em seu passado, a britânica foi acusada de “passar panos quentes” em cima da situação, minimizando o assunto e até bloqueando fãs que cobrassem um posicionamento contrário dela em relação à permanência de Depp como membro do elenco da série. É curioso observar como justamente o ponto máximo da trama de Os Crimes de Grindelwald expõe uma dificuldade política de dentro da própria produção: Grindelwald é fascista, se vale do autoritarismo e da conversão de massas através de um discurso galanteador para impor resoluções atravessadas que ferem os direitos de vida e existência daqueles que não concordam com o seu posicionamento. O tipo de comportamento de um homem violento que agride fisicamente a pessoa que optou por dividir sua vida com ele. Ironias.

O discurso – de qualquer tipo ou objetivo – é o ponto-chave da trama. Não destacá-lo foi o primeiro grande erro da escrita de J.K. Rowling dentro da série Harry Potter,  focando-se demais no enorme Casos de Família bruxo que mais parece uma execução em tela de um texto relevante apenas a nível de curiosidade do site Pottermore. Em certo momento, não dá pra entender quem fez o quê e com que intuito. Com isso, deixam-se as artimanhas, a politicagem e a real força-motriz de Animais Fantásticos de lado, acumulando tudo no final; o verdadeiro momento Harry Potter raiz. A trajetória linear de Queenie e o discurso alienador de Grindelwald são, de fato, Rowling em sua melhor forma. Em seu derradeiro momento, o vilão, já mais do que satisfatoriamente exposto como um genocida impassível de remorso, remodela as próprias palavras para se retirar da imagem de um preconceituoso contra as pessoas sem magia, e chega a alegar não se interessar por violência, “ao contrário do que dizem” (soa familiar pra você?). Com um discurso de ódio embutido, transfere para os mais fracos (os trouxas, no-majs) a culpa pelas desgraças do mundo, alcançando o ápice ao mostrar como a sociedade que deu vez e lugar para todos em pé de igualdade – bruxos e trouxas – destruiu a vida da comunidade mágica. Mais uma vez: esse discurso te soa familiar?

Nesse primeiro blockbuster anti-Trump e, indiretamente mesmo sem ciência, anti-Bolsonaro, as armas contra o fascismo não são só as varinhas dos Aurores, mas a representatividade. Diferente da declaração confusa do diretor David Yates, que nós chegamos a explicar melhor aqui (e acertamos!), Dumbledore (Jude Law – que está muito bem) é abertamente gay. Para o público. Seu maior anseio é dividido de imediato com a plateia, ainda que seja apenas insinuada para Newt (Eddie Redmayne – que continua sem carisma algum) em certo momento. É notável mostrar – sim! – que um personagem mundialmente respeitado foi capaz de realizar tantas ações colossais sendo gay – você só não sabia disso (porque é, de fato, um ponto irrelevante). Constatação lógica que incrivelmente não passa pela linha de raciocínio do preconceito.

Ok, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald tem seus imponentes trunfos técnicos. A Direção de Arte de Stuart Craig é tão arrojada e meticulosa como sempre foi, os efeitos visuais conseguem a proeza de criar sequências embabacantes, como a fuga de Grindelwald, que abre o filme, e a fotografia até nos faz resgatar o primor visual de Enigma do Príncipe (2009). Mas tudo despenca do pódio quando alcançamos a dádiva política que Rowling tanto imprimiu em seus sete livros da saga original e repetiu aqui – ainda que uma parcela limitada dos fãs não tenham tido a sagacidade de entender todas as alusões ao mundo real que a autora fez. O que precisa como roteirista é desatar alguns nós em sua narrativa e voltar à fluidez sempre presente para desenvolver seus personagens e engatar no tipo de drama que conversa diretamente com o seu público. Isso porque apesar de ter se embananado na construção desse capítulo, J.K. Rowling sabe o que está fazendo. E precisamos crer que a autora estará pronta pra usar a sua maior mágica (a escrita) para mais uma vez salvar a vida de seu público; agora do fascismo que ameaça o coletivo, e não mais do Dementador de estimação de cada um. O próximo filme, ao que tudo indica, se passará no Brasil. Quer combinação mais gostosa do que super-produção de aclamação mundial com trama fascista se passando aqui no país e exibido justamente durante o governo Bolsonaro?

 


Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald (EUA/Reino Unido, 2018). Fantasia. Aventura. Warner Bros. Pictures.
Direção: David Yates
Elenco: Eddie Redmayne, Jude Law, Johnny Depp

 

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Aventura, Críticas, Fantasia