CRÍTICA | Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I

Ação
// 16/11/2010
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A mais aclamada série do cinema mundial chega nesta sexta-feira ao começo de seu final épico. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I, o maior lançamento da indústria em 2010 é, sem dúvida, o longa que mais chances tem de finalmente criar um consenso entre os fãs e se tornar o preferido.

Com tanta ansiedade ladeando o lançamento de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I, torna-se fácil falar sobre. Em tal etapa da existência da série no cinema, não há sequer uma alma viva que não tenha experimentado algum contato com a franquia e, se o fez, provavelmente manteve o interesse por seis longos filmes, sustentando a busca por uma poltrona em sessões lotadas para acompanhar o início do capítulo de desfecho. Valendo-se disso, a primeira parte do último volume adaptado para as telas toma como certo o fato de que fãs, Harry Potter tem aos montes. E é justamente para eles que o longa é direcionado.

Em 2001, quando Harry Potter e a Pedra Filosofal alcançou sua versão audiovisual, os já formados – e numerosos – fãs se viram diante de uma história que não contava com todos os elementos que, para eles, eram primordiais. Um efeito que se perdeu quando, em 2004, Alfonso Cuarón assumiu a direção anteriormente de Chris Columbus e balançou ainda mais as coisas. Foi quando os dois primeiros filmes ganharam, em resgate, as boas graças dos cobradores de fidelidade, enquanto Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, o então terceiro filme, desfilava em meio a tiradas de chapéus e reverências da crítica especializada. Um fato duplo que só tendia a se agravar à medida que os vindouros filmes acumulavam filas nos anos seguintes.

Quando David Yates tomou as rédeas a partir do quinto filme, a rebelião de fãs começou. Os cortes e “mutilações” daquele que é o maior livro da série, Ordem da Fênix, traduzido na menor minutagem de todos os filmes, quase gerou uma expectativa negativa para o que viria a acontecer em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, projeto em que Yates confirmara seu retorno. Entretanto, a qualidade e inventividade não só técnica quanto artística de Enigma do Príncipe estava lá, ature fã desgostoso ou não, proporcionando um longa que, cinematograficamente falando, era o mais completo e coerente com o seu próprio conteúdo.

Relíquias da Morte – Parte I pode não ser o mais condizente com a realidade artística atingida gradativamente do terceiro filme até então. Mas indubitavelmente é aquele que melhor concilia a quantidade de conteúdo com sua qualidade. A proposta de dividir o sétimo livro em dois filmes é, justamente, transferir o maior número de páginas possível sem as alterações e limitações que se fizeram necessárias até – e mais precisamente – Enigma do Príncipe. E isto realmente acontece, com ressalvas, mas ainda assim. Se o espaço qualitativo da série só se realizava quando o cuidado com a manutenção da narrativa de J.K. Rowling no roteiro era posta em segundo plano, neste episódio, pela primeira vez, as duas coisas estão na tela.

O que é evidente em Relíquias da Morte – Parte I é o modo como a trama é rearrumada para sustentar um longa-metragem. Saem os cortes descabidos e entram a precisão de acontecimentos, ações e, por vezes, diálogos. Como sacrifício, vai embora também toda a criatividade que Steve Kloves demonstrou no roteiro da produção anterior, cujas alterações (indifere se elas foram necessárias ou não) certamente abriram o vão no qual o script foi capaz de se renovar e entregar gratas surpresas; um diálogo com o desenvolvimento dos personagens pouco usual que, desta vez, se deu graças ao que a autora já tinha inserido no desenrolar da história original.

Em contrapartida, Kloves se alia muito bem às ideias da direção de Yates neste sétimo filme. Apesar do caráter ainda mais episódico do capítulo, Relíquias da Morte – Parte I explora com perfeição os momentos em que deve haver reflexão dos personagens, fortalecendo suas relações de um modo ímpar e exemplar que, apesar de significarem a camada mais lenta da projeção, ganham status de injeção de fôlego ao revezarem com as sequências de ação e magia. Por sua vez, David Yates aproveita cada linha do imaginário mais eloquente do leitor da obra original para desenvolver passagens memoráveis. Aceleradas, de fato, mas bem inseridas. A exemplo disto estão a transformação dos sete Potters e sua consequente fuga, no primeiro ato, a invasão ao Ministério da Magia (destaque para a atuação impecável de David O’Hara como Harry Potter/Albert Runcorn) e a visita a Godric’s Hallow, cujo excelente plano de visão proporciona tomadas espetaculares e ângulos perfeitos, dando um caráter vivo e dinâmico aos tiros de ação do longa – que vêm e voltam no tempo certo, sempre por uma mão segura da direção. Um sustento ao filme de maneira habilidosa, quase anulando o fato de não haver um clímax em construção.

Esteticamente, Relíquias da Morte – Parte I se supera. A Direção de Arte consegue provar o nível de exploração visual que pode proporcionar – o redesenho do Ministério da Magia é uma prova – enquanto os efeitos visuais extrapolam a meta em níveis que, mesmo já conhecidos, espantam pelo primor do convencimento. Ponto também para a fotografia de Eduardo Serra, menos propensa aos realces deslumbrantes de Bruno Delbonel, mas tão comprometida quanto em revelar a emergência dos fatos através de nuances dadas aos elementos em tela, compondo uma estrutura que ganha saliência graças as impecáveis escolhas de locações abertas.

O visível empenho no lado técnico, como satisfação, não caminha desamparado. A evolução de Daniel Radcliffe é clara, cuja atuação é entregue por mãos empenhadas em alcançar o mesmo patamar que Rupert Grint e Emma Watson já se põem há tempos. Esta, aliás, rouba as atenções não só na postura significativamente mais segura, mas também por conta de uma personagem que alicerça o sucesso das empreitadas do trio. Um êxito, se considerarmos a quase completa ausência de coadjuvantes mais maduros que, aliás, não auxiliam em sua totalidade. Apesar de Alan Rickman (em uma curta aparição) e Ralph Fiennes (ainda mais apropriado do que nunca) cumprirem mais do que bem a tarefa, Bill Nighy incorpora um Ministro da Magia desconfortável e forçado, quase beirado a caricatura – apesar de não comprometedor – mas o suficiente para perder para a expressividade virtual, porém bem mais honesta, dos elfos Monstro e Dobby.

O erro que coloca Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I em certa desvantagem daquilo que se espera que venha a ser a segunda parte é a disposição das ocorrências. Obviamente, a característica episódica está bem longe de ser uma pedra no caminho. Entretanto, o desenvolvimento não se dá. Os atos se postam de maneira costurada uns aos outros, dispensando um núcleo que valide a Parte I como um filme analisável como uma obra auto-suficiente. Sua dependência à segunda parte é gritante e ainda mais sufocante quando visto com clareza que isso é um problema que seria facilmente contornável com uma intenção narrativa que desembocasse em um clímax – ainda que ele viesse a ser um elemento vulgar da metade da trama central de Relíquias da Morte que passara por uma transformação apropriada. E a edição sofrida só ajuda a atenuar isso.

Relíquias da Morte – Parte I assume, desde o seu título, um contexto que não se encerra em si mesmo; óbvio. Entretanto, o material original usado tem pontos suficientes para estabelecer um narrativa própria sem precisar contar com a chegada de um filme no futuro. Encerrar a trama, claro, não é a questão – e isso nem deve ser colocado em pauta. Mas garantir sua unidade seria um passo significativo para moldar sua identidade emancipada. Por outro lado, o filme é rico em diversos aspectos que compensam essa carência e, certamente, é um primor como início de um grande final.

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Harry Potter and The Deathly Hallows – Part I (EUA, Reino Unido, 2010). Ação. Fantasia. Warner Bros. Pictures.
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint
Especial Harry Potter 7.1

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Categorias
Ação, Críticas, Fantasia