CRÍTICA: Ilha do Medo

Críticas
// 15/03/2010

Aguardado mais pelo furor já alcançado em parcerias anteriores entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio do que pelo interesse ao filme em si, Ilha do Medo chegou aos cinemas nacionais com um breve atraso nesta última sexta-feira.

Leia a crítica de um delirante Scorsese clicando em “Ver Completo”.

Ilha do Medo
por Bruno Cava – colaborador

“Pull yourself together (Controle-se)” ordena para si mesmo o policial federal e veterano da 2ª Guerra Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), diante do espelho em sua cabine de barco, enquanto lá fora o mar revolve no prenúncio de tempestade. Ele será o narrador nada confiável deste thriller psicológico, que mistura horror gótico (cemitério, mausoléu, farol, prisões assustadoras) com noir de mistério detetivesco (quem matou?). A sua narrativa entremeia-se de flashbacks e cenas delirantes, em tintas barrocas, de modo que o espectador é levado a desconfiar sobre o que de fato está acontecendo. Da mesma forma que a mente de Daniels/DiCaprio, o tempo convulsiona-se com furacões de alta magnitude, que fustigam a ilha-manicômio (do protagonista), sob efeitos sonoros dissonantes e furiosos.

Ambientado em 1954, o clima de loucura circular reverbera a atmosfera paranóica do início da Guerra Fria, quando os Estados Unidos foram assolados pela caça às bruxas do macartismo – a perseguição sistemática de intelectuais e artistas supostamente associados com as idéias socialistas e a União Soviética. Tempos da aparição das bombas de hidrogênio e de experimentos médicos secretos, quando a imagem do “complexo industrial-militar” assombrava a esquerda intelectualizada e alimentava sofisticadas teorias conspiratórias, tão bem captadas pelo cinema da época. Tudo isso matiza o enredo apresentado por Daniels/DiCaprio, cuja vivência traumática na libertação de um campo de concentração não pode deixar que ele admita laboratórios à Menghelle em território norte-americano. Movido pela ética salvadora, mas também por um passado recalcado em off, ele se põe a investigar o que o governo anda fazendo de verdade com os pacientes da prisão-hospício de “Shutter Island”. O desfecho, nada imprevisível, revela a realidade por trás da narração, fazendo o espectador ponderar retrospectivamente sobre o que percebeu do filme (e principalmente o que deixou passar!).

Incomoda neste último Scorsese não a mélange de referências a gêneros e filmes B, habilmente manejados pelo experiente diretor, mas o excesso de estilização. Os delírios-lembranças pintam-se de cores berrantes, numa iconografia exagerada onde diversos elementos — papéis, água, cinzas — despencam nos planos. Resultam artificiais as alucinações de ratos, fantasmas e criaturas, e mesmo as seqüências do holocausto e suas pilhas de incontáveis cadáveres desfigurados passam longe do verdadeiro terror implicado na situação. Compare-se com Noite e neblina (Resnais, 1955), no qual precisamente a falta de estilização aprofunda o horror das imagens. Com tudo isso, em Ilha do Medo, quebra-se o ritmo de tensão, enfraquecendo o noir-psicológico em favor dos efeitos de superfície de um horror mais visual e impactante, o que empobrece o suspense e o drama dos personagens.

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Shutter Island
(EUA, 2009). Policial. Suspense. Paramount Pictures.
Direção: Martin Scorsese.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley
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Críticas, Suspense