CRÍTICA | Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

Ação
// 19/11/2014

Ao pararmos e voltarmos a 2012, é quase impossível reconhecer o primeiro Jogos Vorazes como um longa da série atual. A Esperança – Parte 1 é definitivamente mais interessado e competente em discutir o teor político da trama, seja pela abertura que o enredo dá, seja pela tomada do roteiro e da direção, que dão mais espaço para o desenvolvimento narrativo.

Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1
por Arthur Melo

Se o valor de Katniss Everdeen dentro do universo de Panem cresceu em saltos a cada passo da trama de Jogos Vorazes, o mesmo pode ser dito da produção dos longas que a acompanham. A Esperança – Parte 1 dá continuidade não só a uma história, mas a um processo de evolução técnica e argumentativa que, infelizmente, não é tão comum na indústria.

No filme, os sobreviventes do Distrito 12, bombardeado às cegas do público no desfecho do longa anterior, estão abrigados no até então destruído Distrito 13, que se reerguera secretamente ao longo dos anos no subterrâneo de seu próprio território. Governada pela Presidente Coin (Julianne Moore), a cidadela comanda um plano de ataque e derrubada à Capital, e contará com a imagem de Katniss (elogios à Jennifer Lawrence já são redundantes) para alavancar um grande contingente de adeptos à causa pelos outros distritos.

O processo inicial de A Esperança é o mesmo dos filmes anteriores. Mas, aqui, oferece uma função diferente. Assim como em Jogos Vorazes e Em Chamas, o primeiro ato pertence à inquietação da própria Katniss. E se antes o intuito era a construção de um entrosamento com a personagem, agora o objetivo é não desvirtuar o espectador. Em uma opção por saídas fáceis para qualquer roteirista, toda a mecânica do Distrito 13 seria exposta de imediato, a fim de criar uma ânsia pela participação de Katniss nos eventos. Nesse processo, a decisão da plateia por comprar ou não o ideal do Distrito antes do Tordo entrar em campo se tornaria mais fácil. No lugar disso, os olhos e ouvidos acompanham o mundo e pensamentos de Katnip; tão despreparados quanto ela ao mergulhar nos fatos e agir à medida em que planos e imprevistos se encontram, sem oferecer qualquer momento para uma reflexão sobre a validade do que está sendo feito.

Imersa na obrigação de adotar uma bandeira que não lhe traduz completamente, Katniss reassume por completo o seu papel do primeiro longa, mas com um significado amplificado. Agora, não é a Capital quem lhe impõe o ingresso em uma arena de carnificina televisionada após um sorteio, mas sim um governo que a analisa e seleciona para a entrada em campo de batalha. A relutância só não é maior do que o desejo de proteger quem ama e, assim, movida por questões individuais, promover uma ideologia – algo apontado inclusive pelo Presidente Snow (Donald Sutherland) em certo ponto da trama. A partir daí o argumento de A Esperança – Parte 1 está claro. Uma escolha obviamente deve ser feita: o Estado voltado para uma classe abastada ou a chama de um governo livre, mas igualmente controlador, cujas nuances estão longe de serem vistas com clareza e indisponíveis para discussões.

Os dois lados não são entregues arbitrariamente na tela. Nesse aspecto, a direção de Francis Lawrence soube ser tão consciente quanto nas poucas – mas válidas e bem elaboradas – cenas de ação. A icônica câmera trêmula do primeiro Jogos Vorazes retorna sutil para demarcar uma sensação de urgência e, principalmente, insegurança de Katniss durante seu primeiro diálogo com a Presidente Coin. E mesmo que o regime ditatorial esteja demarcado na trama pela Capital, é na atmosfera do Distrito 12 que as rígidas normas são flagradas pela câmera – como no último discurso de Coin, em que todos os cidadãos surgem na tela em um padrão impecável demais para o que deveria configurar uma multidão.

O traquejo de A Esperança – Parte 1 é entender a sua função dentro da série. Como longa de transição, o título tenta se impor perante os outros. Sai a escassez de sangue na tela e entra uma aglomeração em guerra que avança mesmo com os membros do corpo baleados um a um, e os eufemismos de linguagem dão lugar ao choque e à dor diante do resultado do massacre de toda uma população. Tudo embalado por um orçamento dobrado – explícito pela qualidade dos efeitos visuais – que permitiu a criação de sequências elegantes, como a dos soldados descendo ao Centro de Treinamento na Capital à noite.

O argumento principal desta Parte 1 conversa (em certo nível) com a realidade e prepara o terreno para o que ficará evidente na Parte 2. Jogos Vorazes é, desde sempre, um belo manual de política “for dummies” que se vale de alegorias para dar um peso caricato aos seus elementos e, portanto, deixá-los mais fáceis de mastigar. A Esperança – Parte 1 traz o claro exemplo de que todo modelo de governo tem objetivos voltados para o grupo que o construiu. Mas que, por ser imaginado por um em nome de muitos, os benefícios talvez se firmem de acordo com o individual, não com o coletivo. Cabe escolher o adequado, sim, mas não cego diante de eventuais desvios e nem aceitando como absoluta a plataforma ideológica mais confortável. E esse será o capítulo a ser ilustrado pela experiência d’O Tordo no manual a seguir.

————————————————————-

The Hunger Games: Mockingjay – Part 1 (EUA, 2014). Ação. Lionsgate.
Direção: Francis Lawrence
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Julianne Moore

Comentários via Facebook
Categorias
Ação, Críticas