CRÍTICA: Jogos Vorazes

Ação
// 21/03/2012

Por bem, achamos melhor adiantar em um dia. Ao invés da crítica, como de costume, ser publicada na quinta-feira antes da estreia, resolvemos acelerar. Pela nota posta acima já dá para entender que Jogos Vorazes funciona. E mesmo não pretendendo, vale ressaltar: substituir franquias inacabadas não é tarefa para esta série que está começando agora, até porque não há tanto encanto para isso. Mas, pelo menos, tem excelentes motivos (e qualidades) para eclipsar outras antes que um novo dia comece.

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 Jogos Vorazes
Por Caique Bernardes

A distopia, como a própria palavra já sugere, é uma ramificação da ficção que lida com futuros ou realidades nas quais uma sociedade vive o oposto de uma utopia. Violência, ditadura, alienação, tecnologia avançada e miséria são elementos muito presentes nos clássicos do subgênero, como Admirável Mundo Novo e 1984, assim como são as bases do universo de Jogos Vorazes.

Ao contrário dos clássicos, no entanto, o novo filme escolhe esconder seu duro universo e a forma com que ele funciona para se focar na trajetória e dramas de seus protagonistas. Mostrando apenas pequenas partes dos Distritos pobres e da opressora Capital, o filme nos força, por um sistema de metonímias, a imaginar – e apenas imaginar – exatamente que tipo de sociedade ao mesmo tempo intimidadora e fascinante glorifica um sistema que leva seus adolescentes a lutarem em um torneio até a morte.

O pouco que se mostra, porém, é mais do que o suficiente para situar o espectador rapidamente (em menos de 20 minutos) na dinâmica de poderes daquele mundo. Se nos distritos os figurinos e a direção de arte são cinza, sem vida e simples, a explosão de cores da Capital, assim como seus faraônicos edifícios, simbolizam de forma exemplar uma sociedade claramente movida pelo consumo, capital e espetáculo. Entretanto, o filme claramente sofre com questões orçamentárias, especialmente no que diz respeito aos efeitos visuais, o que faz com que certas sequências que poderiam ser espetaculares, como o desfile dos tributos, sejam diminuídos pela gritante falta de acabamento do fogo, do cenário e da plateia gigantesca declaradamente gerada por computador (que também se repete no auditório e no palco do programa do personagem de Stanley Tucci).

Como dito, os dois protagonistas Katniss Evedreen (Jennifer Lawrence, espetacular), uma habilidosa jovem que se oferece como tributo para lutar no lugar de sua irmã mais nova, e Peeta Mellark (Josh Hutcherson), os representantes do Distrito 12 na 74ª edição dos Jogos Vorazes, não só estão, como são o centro da narrativa, sua relação sendo, inclusive, um dos maiores pontos fortes do filme. A primeira lição aprendida pelos dois ao iniciarem sua preparação é que o reality show é, antes de tudo, uma poderosa ferramenta de marketing e a melhor forma de se manterem vivos é caindo nas graças do público e conseguindo patrocinadores.

Assim, a subtrama romântica de Peeta e Katniss já nasce atrelada e integrada com a luta pela sobrevivência, o que proporciona várias camadas de subtexto no que diz respeito às verdadeiras intenções de cada um no relacionamento. Apenas um espectador desatento ou muito ingênuo aceitará de imediato o avanço do amor entre dois semi-conhecidos, especialmente contando com a atuação forte e extremamente dúbia, principalmente da parte de Jennifer Lawrence que, não se pode frisar o suficiente, está excelente. É uma subversão muito bem vinda no cenário atual de filmes adolescentes, que tendem a glorificar o amor como uma entidade eterna e  infalível, acabando por alienar o aspecto das incertezas e dos interesses que fundamentam os romances reais. A insinuação de um triângulo amoroso complexo e perigoso se formando nos filmes subsequentes ainda aumenta a sensação de desconforto com a situação, ao mesmo tempo em que nos empolga para o que está por vir neste aspecto.

Ainda sobre as performances, o elenco de apoio merece um reconhecimento especial. Lenny Kravitz surpreende como o estilista Cinna, que se revela como um dos escassos pontos de referência moral para o filme, além de possuir uma ótima e emotiva química com Jennifer Lawrence. Stanley Tucci e Woody Harrelson também brilham, especialmente na primeira metade do filme, antes do início dos ‘jogos’, que justamente por estas atuações e pela tensão gerada pela iminência do grande evento nos protagonistas e espectadores, acaba tornando-se superior à batalha em si.

Como era de se esperar, a direção parece estar constantemente travando uma batalha própria contra uma classificação indicativa muito alta e, portanto, se incube de criar soluções inventivas para evitar mortes gráficas e demasiadamente impactantes. Se por vezes a saída encontrada funciona exemplarmente bem, em outras nos decepciona e acaba tornando o filme uma experiência incomodamente limpa; afinal, estamos vendo jovens morrendo e não somos levados a sentir nada. Uma das melhores cenas do filme, que contorna espetacularmente bem este paradoxo, é o início da batalha (antes descrita por Cinna como um “banho de sangue”), quando os tributos saem de suas plataformas com direção a uma pilha de suprimentos, se massacrando pelo caminho. A sequência de planos curtos e desconexos de alguns participantes caindo e se atacando é intercalada por planos do rosto de Katniss, que observa chocada, o que cria o impacto necessário sem necessariamente mostrar o ato acontecendo. Acompanhado por uma música melancólica que dirige emocionalmente a cena, ao invés dos sons de armas e cortes que ressaltariam seu caráter violento, o conjunto se revela cinematográfico e marcante, o que não se pode dizer de muitas outras cenas que dizem respeito aos jogos em si.

Um grande problema existente durante esta segunda parte do filme é a narrativa temporal confusa e mal elaborada. Se nos é dito em certo ponto que o programa dura por volta de duas semanas, uma vez que o acompanhamos nos perdemos na floresta que é o palco dele, no tempo e no andamento dos outros jogadores. As elipses mal elaboradas, assim como o isolamento de Katniss dos outros jogadores, criam tal senso de descolamento do que está ocorrendo que, após alguns acontecimentos, subitamente, o espectador desconfortavelmente descobre que existem apenas cinco jogadores restantes, o que o leva a sentir como se tivesse perdido toda a ação e nem percebido. Esta sensação é especialmente reforçada pelo fato de que o filme não se dá ao trabalho de nos apresentar nem se despdir propriamente de quase nenhum dos participantes dos outros Distritos, o que nos aliena ainda mais do jogo e diminui a sensação de urgência e temor pelas vidas dos protagonistas.

Apesar de suas falhas como filme de ação, o longa compensa com sua ótima articulação da conspiração geral daquele mundo e da relação entre os personagens – inclusive o triângulo amoroso – no contexto geral da trilogia. É notável que o filme seja palpavelmente aberto em certos pontos (inclusive não mostrando o resultado de uma importante sequência que ocorre no meio do filme, após uma morte particularmente emocional), deixando ganchos de que não só explicitam que aquele final não é feliz, como também mostram que a ameaça real articula algum tipo de vingança. Em certos aspectos, a história completa daqueles personagens começa realmente com o final do filme, o que é estranho e ao mesmo tempo empolgante de ser ter ao deixar o cinema, uma perfeita combinação para o primeiro filme de uma “saga“. Com um início bem executado, envolvente, instigante e com um público alvo carente de boas produções de um sempre lucrativo gênero, certamente a sorte estará sempre a favor da trilogia Jogos Vorazes.

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The Hunger Games (EUA, 2012). Ação. Lionsgate.
Direção: Gary Ross
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Lenny Kravitz, Woody Harrelson
Especial

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