CRÍTICA: Kick-Ass

Ação
// 17/06/2010

Já virou um costume com filmes que não possuem um público em espera já definido. Com algum atraso (que se prolongou por mais uma semana), Kick-Ass – Quebrando Tudo estreia nesta sexta-feira nas salas nacionais. Sem se preocupar com a certa dose de violência (muito menos com a idade de quem a está praticando), o filme vale, sim, a ida ao cinema.

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Kick-Ass -Quebrando Tudo
por Arthur Melo

Por um momento não breve, Hollywood sustentou sua indústria por meio de tramas importadas das outras artes. É lógico que este tempo não acabou, não acabará e está distante de um enfraquecimento parcial. Mas aquele período de adaptações insossas e com pouca visão transformadora, ao menos, se foi. O cinema pop parece ter cedido ao bom senso e entendido que aquilo que funciona em outras mídias não necessariamente se aproveita em tela com o mesmo valor. Tampouco os seus conceitos muitas vezes ralos e politicamente corretor dão conta daquilo que, originalmente, não lhe pertencia. Agora, sim, ele aprendeu a adaptar.

Kick-Ass – Quebrando Tudo é o exemplo atual de uma postura que, se nos restringirmos às HQ’s mais incisivas, já começava a se mostrar em Watchmen. Obviamente de gêneros e abordagens diferentes – assim como a temática que neste é menos contextual externamente -, as duas produções possuem a mesma energia própria. A frieza, a violência e a falta de tato, que se prova com uma ausência de eufemismos para amenizar impactos, fazem de Kick-Ass um excelente produto de comédia jovial (“adolescente” não se aplica muito bem aqui) e ação.

Dave (Aaron Johnson) é um típico rapaz invisível. Sem atenção das garotas e viciado em quadrinhos e masturbação, o jovem, num perfeito surto de imbecilidade, resolve fazer as vezes de Bruce Wayne e encarar um (ridículo) uniforme de herói. O seu destino é óbvio e próximo. Dave sofre “avarias” em seu primeira pseudo-combate, gerando rumores que só denigrem uma imagem que ele nem sequer tinha. Não satisfeito, Kick-Ass (como ele se auto denomina), em uma certa noite, acha que pode defender um homem em uma briga de rua às luzes dos celulares curiosos. E o YouTube tratou do restante. Não demorou para acumular fama, amigos da mesma estirpe, inimigos no mesmo padrão e uma carga de problemas provenientes de um esquema maior. Para sua sorte, seu time com Big Daddy (Nicolas Cage, tentando se redimir) e Hit-Girl (a menina Chlöe Grace Moretz – imperdível) já estava formado.

Inicialmente, Kick-Ass não conquista. A repetição de mesmices já acompanhadas em filmes genéricos é uma pedra no sapato do roteiro que só atrai o espectador a médio-prazo. Ledo engano de quem o assiste. Os passos lentos do primeiro ato do longa se confirmam, no segundo, como meros refrescos do que é o comumente narrado, e se torna, ao final das contas, uma aceitável introdução esticada que mostra as origens de um personagem que, bem ou mal, virá a ser um herói. Após isso, a história ganha velocidade. Apesar de patinar entre uma ou outra previsibilidade de ações e reações no meio da trama, o roteiro se preocupa em aplicar a pinceladas o “dueto” de pancadarias que é a base do trio de heróis. Se em uma ponta desta base as lutas são o palco para a comédia tamanha patetice e estupidez, em outra e bem mais jovem, é o alvo de ótimos arranjos coreográficos e sangrentos (disputando com a primeira o posto de maior atrativo do filme).

Se o roteiro pareceu se demorar nos minutos iniciais, compensa quando já resolve o seu destino. O final preparado é retido num clímax estendido que se duplica em ótimas sequências de ação, cuja direção se mostra muito competente tanto em realizá-las quanto em manter a tensão visível nos personagens sob os efeitos da primeira parte até o início da segunda, sustentando o clima e dando uma unidade ao todo.

O prazer proporcionado por Kick-Ass está na junção dos arquétipos já tão desgastados de personagens conquistadores com o ridículo, o cômico e o violento. Não se preocupa em reduzir-se para atender aos aspectos comerciais de um blockbuster que vê a censura como o maior de todos os vilões – o que é bastante positivo – e satisfaz ao entregar o óbvio de imediato para resguardar o diferencial para o fim sem deixar de cair em um desfecho “apropriado” para mais bilheterias vindouras.

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Kick-Ass (EUA, 2010). Ação. Universal Pictures.
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: Aaron Johnson, Nicolas Cage, Chlöe Grace Moretz

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Ação, Críticas, HQ's