CRÍTICA: O Escritor Fantasma

Críticas
// 27/05/2010

Roman Polanski terminou a pós-produção de O Escritor Fantasma preso em sua casa na Suíça. Os Estados Unidos fizeram um pedido de extradição para as autoridades suíças, que puseram o cineasta em prisão domiciliar por acusações antigas de pedofilia. No Festival de Berlim de 2010 Polanski foi premiado como melhor diretor, e não faltam rumores de que a decisão foi pura politicagem para saudar um grande artista em apuros. Isto não está totalmente errado. O prêmio certamente foi dado por motivos políticos, já que o filme trata de assuntos espinhosos dessa mesma área.

Leia a crítica na íntegra para entender um pouco mais (e veja o filme para entender tudo):


O Escritor Fantasma
por Pedro de Biase

Os trabalhos mais conhecidos de Roman Polanski, como O Bebê de Rosemary e O Pianista, não são conhecidos por seu humor. Algumas risadas nervosas são o máximo possível nestes dois casos, mas não passam de uma tentativa de escapar do desespero enlouquecedor dos filmes. O mesmo pode ser dito do angustiante Chinatown, obra com a qual a nova produção do diretor, O Escritor Fantasma, se assemelha. Neste, a vontade de rir não é tão deslocada. A bem da verdade, a graça é bastante intencional.

Há um ponto de partida similar ao da obra-prima de 1974: o protagonista é chamado para descobrir intimidades da vida de outro personagem, e encontra mais do que procurava. Em vez de um detetive particular, temos um escritor fantasma (Ewan McGregor) que vai para os Estados Unidos viver com o ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan) e concluir sua biografia em seu nome. Seu predecessor, Michael McAra, morreu afogado antes de terminar o livro. Enquanto investiga o caso e conhece a esposa de Lang, Ruth (Olívia Williams), o novo Fantasma vai desenterrando segredos sobre o passado, a carreira e a família do político.

Adam é apresentado desde o início como uma figura duvidosa. A caracterização bonachona de Brosnan mostra um homem carismático e ao mesmo tempo impaciente, que ignora assuntos importantes com um aceno da mão. O personagem de McGregor, que dá um humor leve a seu papel, surge bem quando Lang está sendo investigado sobre a suposta extradição de suspeitos de terrorismo para a CIA. A mácula em sua imagem é relembrada a todo momento, e isto o incomoda. Sua paciência se torna cada vez menor, e suas decisões sempre vão pelo caminho mais fácil.

Não só a principal, como boa parte das tensões do filme é insinuada previamente, e acaba diluída em meio a constantes tiradas cômicas, vindas de todos os lados. Em dado momento, parece que o lado cômico ganha mais atenção que o próprio suspense. O Fantasma sempre solta alguma piada que ironiza posturas solenes e sérias, e muitas vezes as reações dos outros são outras gracinhas. E isso continua mesmo quando o roteiro começa a investir em temas cada vez mais severos, culminando em revelações extremamente virulentas.

Que o filme ache graça nisso tudo é um sinal de que Polanski deixou de ver seriedade nas politicagens que regem o mundo. A reação mais exaltada que as descobertas causam é um “Oh, my God” meio sonolento. Demagogia e distração políticas rolam soltas, mas, ao invés de tentar causar revolta, o filme prefere divertir espirituosamente – algo como um Chinatown derrotado, cansado. A revelação final é tão súbita e sem propósito que sua banalidade chega a ser engraçada. A conclusão pode ser pesada, mas não nega a piada: só calha de ser uma brincadeira com consequências desproporcionalmente sérias.

Dois aspectos muito bem utilizados reforçam esse aparente paradoxo. A trilha fanfarrona de Alexandre Desplat soa fantasiosa, dispersando parte da tensão. Era de se esperar algo muito mais solene em um suspense. Já as filmagens de noticiários evitam a aparência documental, o que é incomum. A imagem límpida e as cores cristalinas denunciam a todo momento que aquele material foi filmado. Esta escolha ressalta a natureza forjada das aparições públicas dos personagens, em perfeita concordância com a visão da política como uma farsa generalizada.

Embora seja politizado e lide com assuntos muitíssimo sérios, O Escritor Fantasma garante boas risadas. Há momentos em que a seriedade toma conta, como a reveladora visita à cabana do idoso e, curiosamente, estes são os momentos menos inspirados do roteiro de Polanski e Robert Harris, autor do livro em que o filme é baseado. Afinal, sempre que é possível, os roteiristas brincam com os clichês para os tornarem engraçados, e não para simplificar a narrativa. Nessa obra é possível encontrar diversão fácil e reflexões difíceis, ou seja, bom Cinema.

The Ghost Writer (EUA, 2010). Suspense. Paris Filmes.
Direção: Roman Polanski
Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Cattrall

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Críticas, Suspense