CRÍTICA: Os Descendentes

Críticas
// 26/01/2012

Neste fim de semana estreia Os Descendentes, apontado já por várias premiações como uma das melhores produções (pelo menos norte-americanas) de 2011. O filme é estrelado por um experiente George Clooney e dirigido e co-roteirizado por Alexander Payne, que já tem seu nome inscrito no Oscar por produções como Eleição, Sideways e As Confissões de Schimidt.

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Os Descendentes
por Henrique Marino 

Logo de início, o protagonista põe em dúvida a crença de que o Havaí é um paraíso na Terra.  Indaga ao espectador se os havaianos são imunes à vida ou se suas tristezas são menos dolorosas. Nós, habitantes de terras paradisíacas, sabemos que nosso sofrimento não é medido por nossas belas praias. Breves planos mostram que o Havaí também tem sua feiúra, tal como aqui. E é assim que a fotografia de Phedon Papamichael trabalha ao longo do filme: desconstrói a figura paradisíaca pré-idealizada para fotografar o arquipélago de forma natural e direta. Há mais cenas interiores que exteriores; sendo as exteriores, muitas vezes, fotografada sob céu nublado. O turístico é visto de passagem. A escolha por este caminho imagético é acertada com o tom cru e realista do roteiro, que se preocupa mais com as relações humanas e com os conflitos internos do protagonista do que com a estética tropical. Assim, o personagem principal está sempre em cena, sempre enquadrado de forma a evidenciar da melhor forma possível seu modo de se movimentar pelo mundo em que vive.

A história é sobre Matt King (George Clooney), um homem que passa pelo — talvez — período mais conturbado de sua vida. Sua mulher está em coma após um acidente no mar e, com isso, ele precisa reatar as relações com suas duas filhas, Scottie (Amara Miller) e Alexandra (Shailene Woodley); uma pré-adolescente, a outra já adolescente, ambas um pouco rebeldes como qualquer outra das suas idades. Nos primeiros minutos, Matt descobre que sua mulher está prestes a morrer e, em seguida, que ela o traía. O enredo gira principalmente em torno dessa despedida e da curiosidade em saber quem era o amante. Afora isso, ele precisa lidar com a venda de um território virgem herdado há gerações pela família.

Assim como essa sinopse, o papel de Clooney é pesado. Mas o ator soube se desvencilhar da pressão e fez uma de suas melhores interpretações. Sem explosões emocionais, Clooney faz um Matt comedido, um homem comum que tenta resolver seus problemas emocionais e morais gigantes da melhor forma possível. Através do ótimo ator, vemos que o personagem está meio perdido e assustado, com os ombros caídos e derrotados, a face espantada com as surpresas que lhe aparecem. Mas a despeito de tudo, ele permanece forte e enfrenta todos os infortúnios.

Sim, Os Descendentes é um drama familiar, cheio de emoções densas, mas está longe de ser maçante. Os diálogos tendem ao humor sarcástico e afastam o tom trágico ou melodramático que a história facilmente poderia oferecer. Alexander Payne, novamente, prefere adotar um tom moderado, que bate e assopra com uma mistura de tragédia e comédia. O espectador não é forçado ao choro ou ao riso — embora um alívio cômico suspeito seja inserido através de um personagem. Grande parte da força da produção reside nesta mistura bem dosada e no bom texto adaptado por Nat Faxon, Jim Rash e Payne.

Com mais este filme, o diretor Alexander Payne continua construindo sua concepção do mundo dentro duma filmografia única e autoral. Os Descendentes ressalta sua preocupação em mostrar o lado emocional do homem e como este o atinge. Sua câmera sempre se volta para a fragilidade do ser humano. Seus diálogos evidenciam o humor que existe por trás de toda nossa tristeza. Num certo sentido, nossas mágoas são engraçadas se vistas de fora. Contudo, Payne não faz piada com nossos sentimentos de graça. Ele conhece a seriedade envolta em nossas lágrimas e, apesar de toda a comédia, trata com respeito e sensibilidade nossa fraqueza. Este filme é o mais alto exemplo disso, e é aí que reside a sua beleza.

Embalado por uma trilha sonora de música havaiana — às vezes triste, às vezes alegre, mas sempre tranquila —, o espectador é gentilmente transportado pelos 115 minutos de película. George Clooney reflete com precisão e graça as angústias de Matt King e, assim, ganha a platéia, que se envolve e se identifica nessa história de dramas e comédias. A simplicidade de Os Descendentes soa como um contraponto das produções grandiloquentes dessa temporada.

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The Descendants (EUA, 2011). Drama. Fox Films.
Direção: Alexander Payne
Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Beau Bridges, Matthew Lillard e Robert Forster
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Categorias
Críticas, Drama