CRÍTICA: Rio

Animações
// 07/04/2011

A tão falada animação do diretor brasileiro Carlos Saldanha causou bastante burburinho no final de março no Rio de Janeiro. Neste sexta, chega em 1008 salas nacionais (um recorde no Brasil) o filme Rio, com a proposta de acabar com a visão estereotipada do país lá fora e, ainda assim, cativar o público mundial.

Mas estaria o filme apto a atingir essa meta mesmo com tantas cores, brilho e bom humor? Saiba lendo a crítica, clicando em

Rio
por Leandro Melo

O Cinema brasileiro vive um de seus momentos mais frutíferos em muito tempo. Por consequência, alguns nomes dessa nossa Arte passam a ser reconhecidos internacionalmente. Em contrapartida, uma parte se aventura pelo mercado cinematográfico internacional em projetos voltados a esse mercado. Carlos Saldanha é um exemplar que refere a esse sucesso, porém com um diferencial: em Rio, deverá satisfazer ao público global sedento por blockbuster, ao mesmo tempo em que realiza um filme que se passa em seus país, o que gera uma responsabilidade em não cair nos estereótipos estrangeiros equivocados em uma homenagem banal, calcada em um patriotismo barato. Para os entusiastas, um alívio: ele conseguiu.

Desde a belíssima abertura, um musical localizado para as tradições brasileiras, percebe-se o cuidado em transformar as referências nacionais, de modo que possa tanto parecer familiar a quem é nativo quanto empolgante a quem não o é.

A música brasileira, tão influente e exportada, não poderia ser deixada de lado em uma obra como esta, percorrendo por um caminho seguro. Há o samba, Sérgio Mendes, Will.i.am (um influenciado e entusiasta de nossa musicalidade). Uma curiosidade: há uma disfarçada alfinetada a um certo Zé Carioca em um dos números musicais.

A localização da história se dá no herói Blu, uma ararinha azul brasileira que, criada em um lar norte-americano, possui comportamento e intelecto humano, mas perde a sua principal característica animal: saber voar. Ao precisar retornar ao Brasil para reproduzir e fugir da extinção (no filme, Blu é o último de sua espécie; na vida real há apenas 73 exemplares de Ararinha Azul, que é ainda mais rara do que a Arara Azul), descobrirá junto com o espectador o que é a cidade que dá nome à obra de Carlos Saldanha.

O ponto fraco de Rio se encontra em seu roteiro. Don Rhymer segue muito bem na estrutura dramatúrgica, apresentando os personagens principais e secundários sutilmente e inseridos no ritmo coerente. Porém, este se perde no momento em que inclui no percurso do filme piadinhas que arrancaram risos fáceis e descontraídos, mas que em nada acrescentam à história. Pelo contrário, acaba criando momentos superficiais e que não se justificam.

A beleza das técnicas de animação em Rio faz da sua cidade-musa inspiradora. Era de se esperar que um diretor brasileiro tomaria total cuidado ao realizar um projeto tão pessoal, mas é emocionante ver o Rio de Janeiro recriado artificialmente na película. É possível, inclusive, reconhecer determinados lugares que talvez só os cariocas ou turistas assíduos perceberiam, fugindo do lugar-comum-cartão-postal (embora eles obviamente também estejam lá).

Porém, é na dublagem que o filme encontra o seu fator irretocável. Jesse Einsenberg imprime em Blu uma personalidade totalmente condizente com os seus atos em sua fala ligeira, tentando passar uma falsa segurança. Anne Hathaway, por sua vez, transporta toda a sua bela imponência para a Jade. O elenco coadjuvante transborda carisma e o ritmo leve que permeia por todo o filme.

A Carlos Saldanha, todo o mérito de conduzir a orquestra que é a execução de Rio. Apesar de perder a mão em determinados momentos, o conjunto de qualidades na obra acaba sendo muito superior aos seus defeitos. Mas a carreira de Rio nos cinemas mundiais é incerta. Apesar de ser um filme de apelo universal, não se sabe até que ponto público e crítica estarão dispostos a receber a obra sem exagerar na visão estereotipada estrangeira, o que seria um desperdício, visto que Rio é muito mais que isso.

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Rio (EUA, 2011). Animação. 20th Century Fox
Direção: Carlos Saldanha
Elenco: Anne Hathaway, Jesse Einsenberg
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