CRÍTICA: Sem Limites

Ação
// 25/03/2011

Fugir dos lugares comuns é uma tarefa dificílima. Tá virando quase uma arte dentro das artes, especialmente o cinema. Sem Limites, para sua sorte, consegue. O filme prende, instiga e tem bastante potencial, mesmo que escorregue feio no sustento da lógica do seu roteiro.

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Sem Limites
por Gabriel Giraud

Uma tentativa de sair do óbvio é o grande feito admirável de Sem Limites. Bradley Cooper em um papel nem tão desafiador e um Robert De Niro apagado montam uma história que prende, surpreende, mas não apreende a lógica do próprio roteiro. Apesar de a grande falha do filme estar no roteiro, sua premissa de argumento é riquíssima e fonte de discussões em diversos campos das ciências biológicas e humanas. Das discussões acadêmicas, o tema do controle completo do cérebro chega à tela grande.

A fotografia diferenciada inicial pode parecer clichê no início do filme. A história é sobre um pacato escritor em crise de inspiração, Eddie Morra, que toma uma droga experimental capaz de fazê-lo usar a capacidade completa do seu cérebro. As cenas de Morra na sua vida pacata têm cores esmaecidas, enquanto os do “super-Morra” têm saturações e brilho. Mas, ao sair do campo da mera mudança de saturação de cores e distorções de imagens, há muitos efeitos bem hipnotizantes, como o do zoom em perspectiva eterna e o quadro esmaecido dentro do quadro de cores saturadas.

A estética não é tão blockbusterista, há uma tentativa de sair do óbvio pelo roteiro. E essa saída é bem-sucedida, esteticamente e narrativamente, na medida em que sucesso significa a atenção do espectador. Cooper tem um certo carisma, mas a interpretação não é das mais desafiadoras – um homem numa vida pacata que depois vira um homem das altas rodas da sociedade com suas crises de saúde não cria conflitos psicológicos que são memoráveis num olhar ou numa cena (exceto em uma – a mais chocante). No entanto, ele conduz bem a trama. Em certos pontos, surge Carl Van Loon, interpretado por um De Niro desvanecido, mais pela sua justa economia do que pela sua incapacidade – ele não é a estrela do filme.

Voltando ao protagonista, podemos ver uma construção de argumento muito interessante, porém errônea ou até mesmo falha. Partindo do pressuposto que a droga torna o cérebro totalmente ativo, capaz de reconhecer padrões de reincidências logarítmicas nas probabilidades do mercado de ações, esse mesmo cérebro seria capaz de reconhecer os males causados pela própria droga. Assim, vários problemas enfrentados por Morra seriam remediados pela sua inteligência irrefreável. Mas esse fator  se torna uma serpente que morde a própria cauda dentro do roteiro.

Não podemos esquecer que esse uróboro é um símbolo mítico em várias culturas. Está certo que a moral (ou não-moral) de Sem Limites não se relaciona com a eternidade ou com o infinito, mas, de algum modo, com o renascimento. Essa questão é um mote que foi o grande salto desse argumento ante outros filmes. Seríamos capazes de ceder quanto para renascer perfeitos? Seríamos capazes de fazer o quê para seduzir todos? Como a sociedade espera que sejamos? Questões como essas, ricas em caráter reflexivo (e muito presentes nas Ciências Sociais e Psicologia), mesmo sem levar a narrativa cinematográfica a uma conclusão fechada, seduzem qualquer mero mortal.

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Limitless (EUA, 2011). Thriller. Imagem Filmes
Direção: Neil Burger
Elenco: Bradley Cooper, Robert De Niro, Anna Friel
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Categorias
Ação, Críticas, Thriller