CRÍTICA | Vingadores: Ultimato

Ação
// 24/04/2019

O objetivo da indústria do Cinema é gerar lucro através do seu papel de entreter. Sem dúvida. Às vezes, ideias arrojadas surgem nesse processo enquanto uma maioria patina com medo de arriscar. E não é nenhum segredo que a Marvel, em toda essa última década, se arriscou. Foi essa coragem que projetou um novo modelo de produção e de narrativa que a transformou em um estúdio tão influente. Mas isso não quer dizer que ela tenha assumido qualquer risco agora, nem que isso signifique que ela falhou. Em Vingadores: Ultimato o estúdio se propôs a entregar para o seu público tudo o que ele mais esperava; para o bem ou para o mal. Seguindo a história do exato ponto em que Guerra Infinita parou, o longa é uma grande reunião de personagens para celebrarem o casamento entre a franquia e os fãs.

Na trama, os heróis poupados pelo estalar de dedos de Thanos buscam um meio de reverter os recentes acontecimentos, mas não sem antes lidarem com seus próprios dramas. Afogados em um mundo semi-apocalíptico pelo colapso da sociedade, o longa é o que mais investe em usar as personalidades já bem delineadas ao longo da série para construir um primeiro ato devagar, mas sólido e verossímil. Não imaculado, contudo. A mesma linha criativa que foi capaz de escrever tantas falas de humor (uma marca da franquia) não teve o desempenho esperado para alcançar diálogos seguros dessa vez. E as construções cênicas também não ajudam. Em um curto espaço de tempo, situações e conversas clichês já exploradas por praticamente qualquer produto audiovisual beiram o incômodo, como a cena do reencontro entre Natasha (Scarlet Johansson) e Clint (Jeremy Renner). No técnico, a mesma computação gráfica que alcançou patamares invejáveis com a textura da pele do Hulk não atingiu o mesmo êxito na fluidez de seus movimentos, algo gritante durante a conversa do grupo no restaurante. E até o chroma key entrega a falta de realismo uma vez ou outra – duas falhas banais que põem em questionamento como uma produção com esse orçamento e equipe em níveis de excelência chegou a esse resultado (ainda mais depois dos longas anteriores).

A diversão mais despretensiosa e genuína de Ultimato é o desenrolar da estratégia bolada por Homem Formiga e Homem de Ferro para reverter os efeitos da Manopla do Infinito. O retorno do grupo para diferentes momentos do passado é uma aula de como resgatar passagens já concluídas em um longo arco narrativo sem desmenti-las, mas sim acrescentando informações que as enaltecem ao passo que ainda avança com a história atual. Um lampejo de brilhantismo de um roteiro que sabe se mostrar inspirado quando quer afagar o ego da própria série em claras referências. Um toque de inteligência que funciona como um papo íntimo com o fã de memória fresca. Esse frescor pode até não ter tanta energia para resistir às três horas de projeção, mas volta ao final para trazer nas breves palavras de Pepper Potts para Tony Stark uma forma simples e justa de encantar, em um toque absolutamente humano do roteiro em sua melhor demonstração de experiência ausente em muito drama oscarizado. Rende até a sua última cena, quando funciona também como o final emocionalmente desejado para Capitão América: O Primeiro Vingador, concluindo com gracejo a primeira história da cronologia que se encerra aqui.

Se Vingadores: Ultimato é tudo aquilo que o fã mais esperava ver, é também aquilo que o fã mais esperava ver (exceto, claro, a extrema subutilização da Capitã Marvel, que joga a personagem para o âmbito da irrelevância e desconexão com a narrativa prometida pra ela dentro e fora do filme). As mini-surpresas – aquelas que provocam um curto estado de alerta, mas não se destacam sobre o filme – estão lá. Grandes revelações? Esqueça. Se distanciando de Guerra Infinita nesse ponto, o filme não traz elementos que surpreendam um espectador mais atento e resistente da última década – e nem precisa ser muito fã. Até mesmo a morte do maior protagonista de toda a saga já era comentada, assim como o óbvio retorno de todos os desfragmentados nos momentos finais. E é aí que perde-se a oportunidade de se transformar no melhor filme do estúdio e num evento cinematográfico histórico para além do âmbito do consumo.  A batalha final possui proporções épicas? Com certeza. Mas ela definitivamente não é nada muito mais avançado em relação a poderosas conclusões que já assistimos, como O Senhor dos Anéis e Harry Potter (que contavam com esquemas de direção e fotografia mais arrojados). É numerosa, é intensa, mas é uma metralhadora de fan-services com um bom avanço tecnológico do CGI; e nada além. Mas esse é um problema com muitos parênteses. O sabor da novidade é muito prazeroso, mas o paladar também se excita quando nos deliciamos com aquele prato mais esperado. Essa é a entrega de Ultimato. E nisso ele se sobressai. É residente da casa do impossível a ideia de qualquer fã que se veja frustrado pelo que está sendo dado a ele. Afinal, foi, sim, o que ele pediu. E que mal há nisso?


Avengers Endgame (EUA, 2019). Disney. Ação.
Direção: Joseph & Anthony Russo
Elenco: Robert Downey Jr. Chris Evans, Chris Hemsworth, Scarlet Johansson, Brie Larson.

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